Tião Sofrência e o vento de agosto

Tudo era motivo de queixumes para aquele homem nascido e criado na roça.

Se a vaca desparecia do curral lá vinha ele com a mão na cabeça, perguntando aos vizinhos de pasto: “sabem pra onde foi a Braúna? Tomara ela não tenha fugido para a roça do Nicanor. A danada rompe cerca com tal facilidade que eu não tenho sossego com ela. Melhor vender pro açougue. Antes que ela me cause prejuízos maiores”.

Uma hora depois a pobre vaca injustiçada aparecia do nada. Trazendo aos pés uma linda bezerrota. E dava vinte litros de leite frio. Fora o colostro que fazia crescer o produto de sua escapadela. Para expelir a cria num matinho escondido no meio do pasto.

Noutro dia era a mesma ladainha: “a danada da Esmeralda, ao fugir do curral, depois do bucho cheio, deixou a cria esfomeada. E tive de dar dez litros de leite de outra vaca. Para a pobrezinha não morrer de fome”. E a linda bezerrinha crescia a olhos vistos. Indiferente aos queixumes do dono. Que por tantas queixas era considerado pessoa não grata àquela gente boa acostumada aos percalços da vida no campo.

Tião Sofrência não tinha idade para ser avô. Mal parecia um pai desmazelado. Com a cabeleira desalinhada. Com a face crispada antes do tempo. Tal o mau humor que o fazia sempre de mal com a vida. Mesmo naquelas manhãs lindas quando o sol acorda cedo, e lança seus raios amarelinhos no horizonte, prometendo cair água ao fim do dia.

Aquele homem nascido na roça não gostava do que fazia. Sonhava se mudar pra cidade. Acordar tarde. Passar horas a fio assentado a um banco da praça. Gozando a aposentadoria sem ter direito a ela. Pois ainda sobravam anos e anos antes de encostar-se ao INSS.

Daí a sua fama, justificada, de ser alguém não afeito à lida na roça.

Passaram-se anos. E o ainda não idoso Tião continuava ali mesmo, sem poder mudar de vida.

A julho sobreveio agosto. O frio do inverno prometia esquentar. Mas o queixoso Tião continuava nos seus reclames constantes. Com preguiça de trabalhar.

Eis que chega setembro. Mês seco. Quase começo de primavera.

A pastaria ressequida se mostrava da cor de palha vencida.

E nada de a chuva chegar. A vacada do indolente Tião emagrecia a costelas vistas. A silagem de milho acabou.

Foi quando Tião decidiu mudar de vida. Passou a roça nos cobres e mudou de estação.

Levando na mala a esperança de dias melhores. Já se antevia na cidade grande. Assentado ao banco da praça. Sem nada fazer a não ser esperar. De papo pro ar. Bem devagar.

Ao passar pela porteira que antes rangia nem olhou atrás. Deixou tudo como estava. A vaca Braúna, com cria nova, a Esmeralda foi vendida como carne de primeira. Embora fosse vaca velha. Em ponto de troca.

Até seu fiel escudeiro, um cachorro que nem latia, de tão manso que era, foi abandonado na porta da casa, sem saber o que seria do seu paradeiro.

Tião estava certo de ter feito a opção correta. Na sua rocinha não era feliz. Embora ali nascido, tendo o umbigo enterrado debaixo da bananeira, o seu coração estava longe daquele pedaço de chão.

Chegou à cidade depois de uma viagem curta. Mas cansativa. Abrigou seus ossos cansados prematuramente numa pensão modesta. Pensando no que fazer depois.

Aos quase sessenta anos sentia-se realizado. No banco uma aposentadoria gorda, acrescida de uma poupança rentável, era mais do que o suficiente para ter uma vida pra lá de confortável.

Da sua rocinha nem saudade sentia. Dos vizinhos nem se lembrava mais.

Eis que de novo chegou agosto. Com ele seu vento frio.

Foi numa sexta-feira, começo do mês, que o velho Tião, apelidado de Sofrência, embora seu sobre fosse Alvarenga, uma vez assentado ao banco da mesma praça, ao cair da noite, de repente assoprou uma ventania forte. Levando tudo pelos ares.

Com ela se foi o velho Tião. Ainda hoje dizem, nas cercanias, por toda cidade, que assim que o vento de agosto chegou, com ele levou a pessoa do Tião Sofrência.

Ele nunca mais foi visto por lá. Pra onde teria ido o velho Tião? Tomara para o mesmo lugar de onde veio. Para continuar seus queixumes ao vento. A assoprar aos ouvidos das pessoas nascidas na roça queixas desprovidas de razão. Que não têm o costume de reclamar.

Ainda hoje, ao descer pela rua, ao passar pela praça, notei um murmúrio sendo levado pelo vento. Apurei os ouvidos e pensei ter ouvido a mesma ladainha de sempre: “pra onde foi a Prendada? Ela estava aqui ontem. Teria sido furtada? Pena, era a melhor vaca do curral.”

Olhei pro lado e nada vi. A não ser um ventinho maroto. Era o vento de agosto levando em seus braços a figura descolorida do velho Tião. Pra onde? Não sei. Pelas minhas conjecturas para lugar nenhum. Ou para algum lugar onde o vento sopra. Sem cessar.

 

 

 

 

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