Cinquentanos

Afinal é quase meio século. Anos antes era esta a sobrevida média do brasileiro.  Quem chegasse aos cinquenta anos poder-se-ia dizer que era um sobrevivente. Febre amarela, desnutrição, cânceres não diagnosticados a tempo, impetigo, varicela, varíola e outras endemias maiores, matavam gente a perder o rumo de quantas sepulturas eram.

Quem chegasse aos cinquenta anos poderia se dizer que vivia nos descontos ou na prorrogação. De uns tempos onde a televisão era em preto e branco. Os bondes puxados a cavalo. Os trens de ferro faziam “piuis”, tintando de fumaça os céus de brigadeiro. Resfolegando morro acima, parecia precisarem de empurrões para vencer a subida.

As balas da macaca Chita, ainda hoje vendidas, e como as aprecio, eram compradas a frente dos cinemas. Onde se podiam ver os filmes de Carmem Miranda. De Mazaropi, Cantinflas, e o épico E o Vento Levou, que me levou às lágrimas assim que o assisti.

São tantas e tamanhas relembranças que os idos anos ainda perfilam em preto e branco dentro de mim.

Conhecia-a no rela do jardim. Aqui pertinho. Na praça Doutor Augusto Silva.

Ela, com seu vestidinho rendado, não sei se das suas mãos saíram, um palmo acima dos joelhos, provocavam em mim a cobiça por conhecer como era acima deles. Eram pernocas grossas. Morenas jambo da roça.

Ainda me lembro de quando eu, no meu chevetinho azul céu de anilina, a esperava na porta do colégio estadual. Que ficava pertinho abaixo da porta do cemitério local. Pra onde íamos? Era segredo de estado. Melhor ficar calado, para não alardear o mal feito muito bem feito.

E como era bonita a minha moreninha brejeira! Faceira, briguenta, como até hoje inda é.

Boas recordações tenho de nós dois. Brincando na piscina do mesmo clube que ainda vou. Em mergulhos curiosos, passando por baixo das pernas dela e de outras moçoilas casadoiras. Neste ínterim aproveitava para passar as mãos, sem querer desejando, em suas pernas nuas.

Nada mais acontecia naqueles momentos lúdicos.

Foram dez anos de ficansas. Ainda não se falava ficar. A gente pedia ao seu pai para namorar. No começo foi no rela do jardim. Quando se conseguia o aceite do sogro, um libanês com cara de bravo, era mansidão pura e singela, a gente prometia um compromisso sério. “É pra casar”? Resmungava o resmungão.

Lógico que a resposta era invariavelmente sim.

Era na poltrona da casa onde mora até hoje minha sogra, no alto dos seus mais de noventa anos, dizem que sogra é boa quando vai ao céu, a minha tomara tarde muito a ir ao além, que a gente namorava. Entre abraços e pão de queijo. Que até hoje esta pessoa, com a qual estou a mais de Cinquentanos, fazia a perfeição.

Foram dez anos de namoro. E quarenta anos de matrimônio. De aí nasceram dois filhos. Até agora um neto. Logo logo mais um, ou dois, virão.

Tomara a nossa casa, de hoje a mais Cinquentanos, se encha de crianças lindas, dois é pouco, dez nunca seria demais.

E ainda dizem que cinquentanos é tempo pra dedal. Pra mim estar junto a ela, em momentos melhores, ou piorais, tanto faz. Uma pitadinha de ciúmes ajuda a fomentar nossa relação. Que mal que faz?

Hoje estou sessenta e oito. Ela, a minha Rosa, três anos a menos. Quem nos vê nas ruas, por vezes às turras, somos turrões, podem pensar que ela se parece a minha filha mais velha. Como se eu fosse um pai pecaminoso. Praticando um incesto gostoso.

Cinquentanos é pouco tempo para ser feliz ao lado de uma pessoa. Esta mestra no corte e costura. Quituteira de mancheia. Cozinheira melhor não há. Mãe na perfeita expressão da palavra.  E sua palavra nome se escreve: Rosemirian Correa Lasmar de Abreu.

Nossa relação fez cinquentanos. Oxalá este número encompride mais do dobro.

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