O homem que não se encontrava

Ainda hoje, bem cedo, quase madrugada, o vi subindo a rua, por outra calçada.

Não é a primeira vez que nosso encontro se dá. Vezes, quase sempre, quando desço ele sobe. Por vezes o pilho tomando um cafezinho magro numa loja de quitandas caseiras nas barbas de uma academia. Pertinho de uma agência dos correios.

Acredito que ele mora perto de onde eu moro. Não no mesmo condomínio. Numa rua nos arrabaldes.

Ele sempre caminhando solitário. Por vezes tomamos o mesmo coletivo juntos. Quando atendo numa unidade de saúde bem distante de aqui onde escrevo.

Sempre nos cumprimentamos afavelmente. Ele é um fidalgo no trato com as pessoas.

Aposentado, em anos voados. Feito viúvo. Assim ele me confidenciou de uns tempos para cá.

Quando nos encontramos, no portão do velório municipal, junto dele parei. Trocamos meia dúzia de palavras. Foi quando soube do passamento de sua esposa amada. Foi um câncer de mama que a fez voar além das nuvens. Creio há anos poucos de hoje enlutados.

Desde então ele vive solitário. Compartilha sua solidão junto às paredes de sua morada. Ignoro-lhe a idade que conta hoje.

Uma ou duas vezes, quando nos encontramos pelas ruas da nossa cidade, ele estava acompanhado de uma senhora morena. Buli com os dois: “amigo. É sua nova namorada”?

Ele fez que não. Com um meneio de ombros.

Meu amigo, das pernas longas e sorriso triste, anda como eu ando. Sem destino certo. Não é um andarilho. Tem lenço e documentos. E carteira de identidade. Até nas horas do dia de hoje não sei qual a profissão a qual meu amigo se dedicava. Bem que poderia ser alfaiate, pelo talho elegante de suas roupas, ou simplesmente aposentado por outras causas.

Eu e ele sempre nos encontramos pelas ruas da nossa Lavras. Hoje não foi diferente.

A solidão que ele me passava atormentava-me a imaginação fértil.

Sabia da sua viuvez. Da falta que uma companheira porventura lhe assoprava aos ouvidos.

Pois sempre o via caminhando solitário. Sem destino certo. Sem pouso definido.

Onde seria a sua casa? Sabia, por informação de sua própria pessoa amável, que ele morava uma rua abaixo de onde era a minha residência.

Como seria a sua morada? Ignorava. Mas tudo aquilo despertava em mim súplicas de curiosidade.

Meu amigo dos encontros furtivos era amigo de pouco convívio. Salvo nossos encontros fortuitos pelas ruas, bem cedo. Quase madrugadas.

Dentro da minha crença meu amigo procurava algo e não encontrava. Por essa razão singela ele ia enquanto eu descia a rua. Com este destino certo. Ele era incerto nas caminhadas.

Não sei por quanto tempo mais nos encontraremos. Enquanto ele sobe eu desço. E vice versa.

O homem que quase sempre é visto caminhando a esmo, pelas ruas da cidade, por vezes nos encontramos, cumprimentamo-nos, desde que perdeu a esposa, bem sei que ele a amava muito, anda com desvario. Talvez a procura da mulher perdida. Numa fatalidade do destino ingrato.

Meu amigo, das caminhadas matutinas, anda com desenvoltura. Ele fica a procura de alguma coisa. Mas não se encontra. Todavia.

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