Da minha parte poucas vezes senti lágrimas verdadeiras escorreitas do canto dos meus olhos.
Na ocasião da morte dos meus pais. Ao escrever sobre a pessoa maravilhosa que era meu amigo Pedro. Embora tenha faltado ao seu sepultamento chorei em verdade ao deixar minha inspiração ditar a crônica que sobre ele escrevi.
Sofro por causa da intensa sensibilidade que me cavouca o peito. Sofro simplesmente por coisas mínimas. Não por um espinho encravado fundo na sola fina dos meus pés. E sim por ver um pássaro ferido, um cão desassistido, um igual ao desabrigo, outro semelhante inerme, deitado num passeio qualquer. E outros desinteressados em sua sorte passarem por ele sem ao menos saberem qual a razão da sua presença naquele local inadequado ao sono.
Hoje acabei de ver uma árvore, no jardim de um grupo escolar aqui pertinho, chorar flores amarelas. Debruçando-as todas sobre o negrume do asfalto recém-molhado por uma chuvinha mansa. Não percebi nenhum choro de criança. Não vi meu netinho no dia de hoje. Domingo, vinte e oito de janeiro. Dia quando completo cinquenta anos de união com uma pessoa a qual devo tanto.
Não é o futebol o esporte que idolatro. Era fanzoca, de ingresso comprado, naqueles idos anos quando morava na capital mineira. Aos jogos do Cruzeiro e Atlético comparecia quase todos os finais de semana. Era torcedor da Raposa. Hoje tanto faz que vença um ou que seja derrotado o contendor.
Já o tênis, ah!, este sim me faz vibrar com as jogadas geniais. Os back hands, os slices, os drop shots, os smashes bem postos me fazem ir ao riso. Não ao choro.
Pena que em nosso país o esporte das raquetes, que ainda é considerado elitista, não tem o apoio que merece. Já foi a era Guga. Depois dele nenhum outro se equipara a sua grandeza. Quem, por três vezes consecutivas, ganhou um dos torneios mais charmosos do planeta? Não creio que estarei aqui para ver, chorar ou sorrir, pós-vitória de um dos nossos jogadores de tênis. Nem meu netinho Theo. Ou outro que um dia vai nascer, aqui vai aplaudir as jogadas geniais, as quais tive a primazia de assistir na madrugada deste domingo, final de mês, de um janeiro marcado por um julgamento do qual ainda não se sabe o desfecho.
Era seis e meia exatamente quando o jogo começou. De um lado o maior tenista de todos os tempos. Embora outra decana do esporte (uma paulista de fala arrastada), tenha dito que não o considera entre os tops. Desde a sua era a atual.
O suíço, tido frio, como seus Alpes, entrou em quadra, em Melbourne, país dos cangurus, para enfrentar um croata gigante. Marin Cilic era um opositor à altura. Não na mesma altura dos seus um metro de oitenta e cinco. Eram muitos centímetros a mais.
Aos trinta e seis anos de idade, ainda vendendo mocidade, quatro filhos, logo terá netos, Federer esbanjou talento. E de novo o encantamento com suas jogadas previamente ensaiadas a exaustão.
O placar não foi tão dilatado como de outros embates. Roger antes não perdera um só set. agora foi três a dois. Se não me logra a contagem.
Não consegui acompanhar todo o jogo pela televisão. Outros compromissos me esperavam. Tinha de ir ver como estava o Solar já quase pronto. Na minha roça ijaciense.
Já de volta, com o celular de prontidão, enfim vi, com esses olhos enxergadores, a festa da vitória do grande, imbatível, que este ano vai ao posto de número um, Roger Federer. Que logo mais vai ultrapassar outro grande campeão: o touro Miúra Rafa Nadal.
Pelo mesmo celular pude ver um grande chorar. Percebi, no canto dos olhos, lágrimas salinas escorrerem-lhe devagarzinho, em sua fala de agradecimento. Ao povo ali presente. Ao mundo que idolatra o tênis. Vi-o se dirigindo ao seu staff. A esposa presente. Aos pais presentes. Ao filho que ali estava. Num inglês perfeitamente audível e compreensível. Vi que lágrimas não são sinais de fraqueza. Elas brotam dos olhos, ao comando de dentro. E só param instantes depois.
Poucas vezes vi o tenista Roger Federer chorar. Dizem-no frio. Uma estátua de gelo duro. Próprio dos Alpes Suíços.
O seu choro não foi como o meu. Na ocasião do passamento dos meus pais. Nem quando veio a morrer meu amigo Pedro. Foi distinto. Mas foi choro. Formado por um líquido que brota lacrimejante, de dentro dos olhos tristes ou imersos em alegria pura e genuína.