Metade de mim tem o umbigo na cidade…

Ao me olhar no espelho, na manhã de hoje, contatei, óbvio, que meu corpo não tem a simetria imaginada.

O lado direito tem um dos olhos mais abertos. Diz o oftalmologista que uma das vistas enxerga melhor de perto. Ambos os olhos exibem lentes ali inseridas para tratar de cataratas antigas. As lentes podem perfeitamente ser observadas caso se olhem com cuidado as meninas dos olhos.

O nariz, único, mediano, aponta mais para o lado direito. As bochechas se equivalem. Os sobrolhos idem. Espessas sobrancelhas se permitem ver por sobre as pálpebras. De quando em vez ouso retirar alguns fios brancos que nascem num piscar dolhos dentro delas. Mas em pouco tempo eles retornam mais fortes. O queixo idem é único. Os aparelhos auriculares são em dobro. Eles se parecem. Os cabelos, o que deles restou, distribuem-se como neve nas têmporas. No alto um descalvado amplo permite ver que a calvície é hereditária. Meu saudoso pai carecou aos menos de trintanos.

Mais abaixo, o pescoço não enseja a divagações, ele é tal e quais outros quaisqueres, nem longo ao desvario, nem curto que não se permita nele enlaçar uma gravata.

Vamos deixar o elo de ligação entre a cabeça e o resto que vai por baixo no olvido do esquecimento.

O peito, não por demais estufado, nem fino demasiado. Dois mamilos que não devem ser chamados ginecomastas. Por dentro dele pulsa apenas um coração apaixonado pela vida e pela simplicidade que dela emana.

Descendo um cadinho mais vamos ao abdome. Dizem os enciumados que ele anda precisando de mais flexões. Na próxima vez que for a academia vou cuidar deste pequeno detalhe.

A pelve é igual às demais. Uma herniazinha de pouco desfrute um dia vai me obrigar a operá-la. Tomara a próstata não se indique antes outro procedimento. É ela a minha especialidade.

O meio das pernas não deve ser exaltado demasiadamente. Ele ainda serve para outras coisas que não urinar corretamente.

As pernas as tenho em alto conceito. Como elas trabalham duro! Os pés, então, pobres sofredores! Sem eles não sei o que seria de mim.

Uma vez descrito meu corpo, sem as minudências de uma aula de anatomia, vamos nos deter em metade de mim todo eu.

Metade de mim é médico. A outra escreve notadamente o cotidiano. Por vezes romanceia-o.

Uma metade de mim é paixão. Uma pequenina fração é resolução. A metade que mais aprecio é irracional. O ancião que tenta viver dentro de mim faz de conta que os anos não chegaram tantos. Quando desejo ir ao médico, a quem procuro? Não ao geriatra. E sim o seu antagônico doutor: o pediatra.

Uma metade de mim não se dá bem entre os numerais. As letras a eles prefiro.

A metade de mim que me faz pensar não é o cérebro. E sim o coração que ama e se apaixona mais e mais pela vida que levo.

Uma das metades do meu eu muge quando vai à roça. A metade urbana de Paulo Rodarte mora na cidade por ter aqui meu ganha pão.

A metade de mim que me faz pensar não faz questão de assim ficar. Caso pense em demasia sinto uma fumacinha deixando minha cabeça meio oca. Tenho medo de fundir meus agitados neurônios. Hoje eles se dão bem. Amanhã, tomara o alemão Alzheimer não venha me fazer mudar para a Alemanha. Quão feliz irei ficar. Danke, bitte, richtig. Festehem sie?

Uma das metades a qual mais gosto dela é aquela que adora escrever. Deitar no papel impressões, opiniões, gostos e desgostos, opções e emoções, ah!, que bom essa minha metade que amo tanto!

Ontem fui ter à roça. Uma casa nos seus regozijos finais está prestes a ser ultimada. Detalhes são detalhes, nada mais são.

Depois de ali ficar, dando um trato em meu amigo cão, um pastor alemão de nome Del Rey, um serelepe filhotão, depois de tentar sanar alguns senões, existem muitos a serem equacionados, assentei-me a um banquinho feito presente por um amigo da cidade: o Peixeiro do posto Venerando, e ali permaneci a olhar as águas plácidas da represa do Funil.

Metade de mim se manifestou dizendo ser hora de ir de volta à cidade. A outra, mais tranquila, dizia: “Paulo Rodarte. Sem me esquecer do de Abreu. Deixe sua outra metade rurícola se aquietar. Calma. A vida não se acaba se a sua metade urbana se desloque da cidade para cá. Definitivamente”. Não sei a resposta definitiva a ser dada a minha outra metade. Se bem que minha cara metade da roça é coisa “pra lá e mior. É bão demais”!.

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