Trago, da minha infância, uma marca em forma de cicatriz na minha perna direita bem em baixo do joelho.
Nunca fui bom de bola. Peladeiro não assumido consumido sim por partidas que terminavam muito mal, naquele campinho cambeta, onde quando a bola de capotão era chutada pelo meu kichute que nem era uma chuteira e sim arremedo daquilo que bons jogadores usam nos pés. Aquela pelota em forma de bola que se fazia quadrada quando murchinha chegava ao gol adversário furava a rede feita em frangalhos e, lá atrás pastejava tranquila uma vaca malhada apartada de sua cria e nem sabia que Cinderela era sua mãe. E essa bola furada toda rasgada batia no traseiro dessa vaca e avacalhava nosso jogo por um simples motivo. A Cinderela vaca era brava e no nosso campinho entrava bufando e resmungando irada aos berros: “seus filhos da …. Vão jogar bola na bunda de suas mães se é que vocês as têm ainda. Ah! Antes que me esqueça. Se quiserem xingar alguém esqueçam meu nome. Chamar alguém de vaca não é nenhum demérito. Se querem ofender alguém chame-o de capivara; roedor maior não tem”.
Outra marca que tenho já quando jovem era. Assim que meus olhos viram uma linda menina. Uma graciosa moleca já bem mocinha que era tida como pudica e bem recatadinha, coitadinho de mim que me apaixonei por ela. Ao meu lado um batalhão inteiro de pretendentes mais bonitos e endinheirados já haviam se deitado com ela não para dormir e sim para fazer outras coisas que nós, velhos, temos dificuldade de fazer bem feito.
Essa marca gravada em dois coraçõezinhos no tronco grosso daquela árvore que já se tornou lenha abatida pelos golpes poderosos de um machado afiado até hoje está gravada na minha pele lisinha em forma de tatuagem.
De uma marca não me esqueço. Foi quando euzinho, moleque ainda nos verdes anos da minha juventude que se extraviou pelo caminho. Tentei afanar um beijinho na boquinha abatonzada de uma mocinha. Elazinha marota, esquivou-se dos meus lábios. Ao revés de me beijar deu-me uma boa e sonora mordida nos meus lábios e que gritaria foi ouvida a sete palmos de distância e até hoje bem me lembro da carreira que tive de dar, já que atrás de mim vieram seus pais enfurecidos tais e quais dez pitbuls loucos pra me atacar.
Essa péssima lembrança a tenho no meu lábio de cima. Falta um pedaço dele uma marquinha quase imperceptível que me traz não boas recordações.
Tantas marcas tenho aqui comigo. Algumas de muito sentido que me fizeram sofrer bastante.
A maior parte delas não me feriram tanto quanto aquela quando, em idos anos, quando me apaixonei de verdade por uma linda mulher, que fez parte do meu passado. Ela e eu não continuamos a nos encontrar olho no olho, mãos entrelaçadas, corpos arfando de desejo num entra e sai que nos sufocava e nunca desejávamos nos apartar de novo.
Essa marca, de nome saudade, de termos de continuar sem nos vermos, sem poder da sua linda boca roubar um beijo demorado, consentido e não afanado. Penso irá me consumir até o infinito e meu grito apenas vai ser ouvido por mim mesmo já que minhas paredes não podem reverberar o eco da enorme e doída lembrança que ela me traz.
Foi no sábado derradeiro o acontecido.
Bem cedinho ainda pus minha caminhonete branca a funcionar.
À porta do meu prédio ela deixou manifesto que ela e eu gostaríamos de fazer uma curta viagem de aqui a minha rocinha na zona rural de Ijaci.
Em menos de vinte minutinhos já estava abrindo a porteira da estrada novinha e empoeirada que havia feito há menos de um mês inteiro.
Já havia tomado meu café, pão com mortadela, numa padaria bem no centro de minha e de vocês, essa cidade que tanto amamos de nome Lavras.
Na minha casa beira represa do Funil já estava a curto tempo meu amigo caseiro Tom Zé que aniversariou no dia de ontem.
Trouxe na minha pequena bagagem meu computador preto esse onde escrevo romances que fica a minha frente aqui na minha oficina de trabalho. Ora não estou nem na metade dessa minha história de amor e quase não fala da guerra entre Ucrânia e Rússia.
Antes que meu amigo que ontem ficou mais velhinho, embora não tenha tantos anos como os meus setenta e seis se despedisse da gente. Eu, meus dois cães Clo e a linda Bia que me foi dada de presente pelo mesmo senhor simpático morador de Macaia de nome Emerson. Passamos a dar uma voltinha nas cercanias. Clo sempre ao meu lado. Bia, presa a uma guia atada a sua coleira pela vez primeira andava comigo, ora a direita, outra a esquerda.
Já a sós na minha morada deixei meus amigos cães, por suas livres e expressas vontades descansando no seu canil.
Comi qualquer coisa já que não sei cozinhar e faço apenas isso quando me sinto entregue a mim mesmo: asso meus pães de alho no Air Fryer, e como de costume bebo meu cozumel.
E fui dar uma caminhada dentro da minha rocinha, que não mais é somente minha, e sim de um amigo recente morador de Belo Horizonte. Até chegar a outra fazenda que foi de um vizinho infelizmente falecido da cidade vizinha de Nepomuceno.
Solitário varei cercas de arame farpado tendo o cuidado de não ficar espetado naquelas velhas cercas. Sempre receoso de não pisar em cobras peçonhentas. Adentrei pastos de capins amarelecidos pela seca sempre procurando fugir dos sarandis. Até chegar de mansinho à casa de um desconhecido, de nome Gilmar, funcionário dedicado do dono daquela bela propriedade.
Voltei a minha morada tão linda quanto o sorriso daquela linda mulher que fez parte do meu passado e infelizmente não mais do meu presente e quiçá do meu futuro?
Por outro caminho ainda mais longo.
Tenho notado, agora e noutras horas, uns calombos vermelhinhos a me fazerem desconfiar quem são os autores dessas coceirinhas impertinentes.
Não os tenho visto já que eles são miudinhos, não são vistos a olho desnudo e nem sou capaz de identificá-los olhando-me ao espelho.
Já os tive de outras vezes, soberbamente quando a chuva escasseia e a poeira prepondera.
São eles os piores inquilinos que moram em nossa casa dita epiderme.
São moradores indesejáveis e pruriginosos.
Não se desgrudam da gente como meu adorável cão de nome Clo.
Esses merdinhas, pessoinhas invisíveis que deixam marquinhas vermelhas e intensamente pruriginosas em nossa pele clarinha são eles, os indesejáveis micuins. Esses carrapatinhos pretinhos, em outras regiões chamados de carrapato- pólvora.
Foram ele que deixaram essas marcas vermelhas na minha pele em distintos lugares.
São marcas que saem depois de certo tempo.
Já as marcas que não saem de dentro de mim, essas já bem antigas, de amores que não são esquecidos, delas não quero me livrar jamais.