Um dia…

Hoje, quando descia a rua rumo a onde estou, era cedo, embora não tenha visto as horas, menos de seis e meia, ao passar defronte a agência do INSS ali vi postado, como um enorme envelope na mão, um senhor de aparência jovem. Tudo indicava que ele iria se submeter a uma perícia. Embora ainda não na minha idade tudo indicasse que sua intenção era se aposentar. Não lhe vi nenhum sinal aparente de invalidez. Todo seu corpo inspirava ausência de imperfeições externas. Por dentro não o examinei. E não era essa a intenção.

Ao passar por ele desejei sucesso em sua peregrinação matutina àquele lugar. Que a vida de aposentado, ou em licença médica, a ele sorrisse, exemplo tal e qual a minha me tem sido favorável.

Agora, minutos depois, ao pensar sobre a vida de aposentado, anos atrás fui pelo INSS, ganho uns trocados que mal são suficientes para pagar as contas de luz e de água, acrescidas ao que percebe minha querida secretária do lar, quiçá para financiar meus livros, ainda tenho de trabalhar duro, em minha primeira opção de amar a vida. Qual seja a medicina querida. A família não a esqueci. Ela tem lugar garantido na prateleira mais alta da minha sorridente visão de vida.

Estou sessenta e oito. Final do ano em curso sigo a sessenta e nove. Um grande amigo partiu antes de completar a minha próxima idade. Quantos anos mais me restam? Seria interessante saber? O que vai acontecer de hoje a outros anos? Ou melhor, ficar na ignorância, como o compadre matuto, que do alto da sua clarividência afirmava que se tivesse de escolher o dia quando vai morrer que fosse num trinta e um de fevereiro, se possível de morte em saúde plena, dormindo um sono profundo. Ao lado da mulher que amava.

Sei que um dia qualquer terei a primazia de me aposentar completamente. Não pela metade. Como agora me encontro. Sou pela previdência social. Ainda tenho de mourejar bastante em dois empregos que me rendem pouco. Mas eles vão me garantir a vida depois de anos a fio. Como médico privado não desejo me aposentar jamais. Estarei aqui, no consultório, em minha especialidade, atendendo a todos que me escolherem. Médico não se aposenta. Esse direito ele os oferece aos pacientes. Quando unzinho só cliente vier a mim, estarei pronto a tentar sanar as suas dores ou livrá-lo de incômodos que o impedem de ser feliz a plenitude plena.

Um dia estarei capacitado a ser feliz completamente. Talvez não seja capaz de distribuir o mesmo quinhão de felicidade a todos que com ela sonham. Mas persistirei na tentativa.

Um dia, não sei quando será, caso esteja aposentado totalmente, embora saiba que o ócio é o começo do fim, escrevei até constatar a incapacidade total de meus dedos digitarem o teclado negro do meu computador. Um dos dois que tenho junto a mim.

Um dia, quando a inspiração ceder lugar a incapacidade de lucubrar, talvez eu me aposente por inteiro. Deixarei meu corpo inerme numa cadeira de balanço, ou numa rede balanceira.

No dia quando não mais puder trabalhar, quando meu tirocínio me abandonar, por favor, não me julguem levianamente. Será contra minha vontade tal estado letárgico.

Quando minha mão, tendo meus dedos como cúmplices, não mais conseguir abrir o corpo humano em incisões certeiras, que não me alijem de mim. Deixem-me descansar sobre uma espreguiçadeira espaçosa, se possível numa varanda ampla, olhando, com olhos que ainda enxergam, as águas plácidas de um lago qualquer.

Se caso um dia, nem quero saber que dia será, irei perder o prazer de olhar as pessoas com olhos amenos, sonegar-lhes os defeitos, enaltecer-lhes as virtudes, que este dia não ocorra nunca. Embora saiba que nunca seja período longo demais. Para meus muitos anos.

Se porventura um dia, que este dia não cresça, como cresceu uma árvore defronte a minha casa da cidade, penso que ela tenha a intenção de alcançar os píncaros do céu, eu de fato esteja aposentado da medicina, incapaz de curar a dor alheia, que não dê trabalho a quem me ama. Poupem-me desse infortúnio. O fim da vida é triste demais para aqueles portadores de doenças incapacitantes, olhando o vazio do nada, como meu pai faleceu, sofrendo os males da doença de Alzheimer.

Um dia, quando não mais for capaz de olhar, com meus próprios olhos, a beleza do rabo do arco- íris, no debrum da tarde, depois de uma chuva mansa, que me deixem partir. Como a andorinha em busca de outros verões.

Quantos um dia mais me verão aqui? Neste mundo lindo. Abençoado por um ser que não se deixa ver. Apenas em seus atos e atitudes.

Um dia não mais estarei embevecidamente a olhar o lusco fusco do sol cedendo lugar a negritude da noite. Que este um dia retarde mais e mais. Oxalá seja feita a minha e a sua vontade.

 

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