Continuo a acreditar nas pessoas. Embora grande parte das vezes elas me decepcionem.
Sempre acreditei na natureza. E ela, mesmo agredida pelos humanos, nunca me fez repensar meu voto de acredito.
Continuo a crer na boa fé. Embora tenha a crença num ser superior não compareço a nenhum templo de oração.
Creio neste país lindo onde nasci. Apesar das falcatruas todas a que tenho assistido.
Deposito irrestrita confiança nos meninos. Nos recém-nascidos então, total.
Pelo que os velhos passaram, pelo trabalho que seus braços fizeram, neles também acredito em suas idoneidades. Não descreio nos jovens. Embora alguns se enveredem pelo caminho errado. Mesmo constatando suas idas pelo mau caminho, quem sabe um dia eles persigam a trilha certa? E encontrem o pote de ouro ao final do arco-íris.
Chiquinho nasceu pobrinho. Num dia como esse. Céu escuro, chovera durante a noite. Na estrada que levava sua casa da roça ao curral poças de água barrenta quase lhe impediam os pés de caminharem.
Ali, no pequeno estábulo onde goteirava a olhos molhados duas dúzias de ruminantes o esperavam ávidas pela ração em falta nos cochos secos. E lambiam o fundo liso de cimento. Com suas línguas grossas.
Mesmo refém do preço vil pago a um litro de leite Chiquinho perseguia o mesmo caminho espinhoso deixado pelo pai avô. Pois foi o avô que o criou. A falta de seu progenitor.
Trezentos litros de leite branquinho, tirado de vacas tintas em preto e branco, era a renda que mantinha o roceiro Chico.
Descontados o preco da soja, em alta, o fubá ali mesmo produzido, outros insumos comprados da mesma cooperativa para onde vendia o produto das tetas das suas vacas, para ele sobrava um cadiquinho. O que engrossava a renda eram as crias. Que bezerrotas lindas um dia virariam vacas baldeiras. Eram mais de trinta a esperarem, sorridentes, o dia de serem cobertas por algum touro bom de genes.
Chiquinho ganhou o apelido de Boa Fé por acreditar em tudo. Mesmo sendo passado para trás não renegava a catira ruim.
Seu vizinho, Geraldo da Nega, a ele passava adiante uma linda vacona gorda. Dotada de um úbere sempre cheio. Caso esta mesma vaca fosse descartada ao abate, no açougue ela valeria mais dos três mil reais que o boa fé Chico pagou ao velhaco Geraldo.
E caso a vaca malhada, de nome Chita, não enchesse dois baldes de vinte litros cada, ele, o esperançoso boa fé Chico poderia devolver o produto e receber o cheque voador de volta.
Quantas e quantas vezes Chico Boa Fé levou manta do vizinho ladino Geraldo. Não foi uma ou duas. Foram várias variadas.
Na troca de um porquinho tido gordo, na intenção de ser abatido para as festas de fim de ano, por uma dúzia de galinhas ainda pintos, quem levava vantagem? Era o vizinho Geraldo. Que ria a olhos molhados da boa fé do vizinho do lado.
Mesmo acreditando nos demais, era de menos a intenção de desacreditar no que diziam os outros.
Chiquinho Boa Fé nunca duvidou das boas intenções daqueles que lhe propunham um pequeno negocinho.
Um dia, ao ver o saldo da conta bancária, era fim de janeiro, seus cabelos ralos se ouriçaram todos. O saldo estava negativado. Seu limite estourara. E ainda iria entrar outros cheques dados meses antes.
Chiquinho deixou as vacas aos cuidados de um cunhado de péssima fama. E foi a cidade falar com o gerente da sua conta corrente.
Uma vez de senha na mão, naquela tarde vestiu a sua melhor fatiota, calçou a única botina que havia no armário morada de ratos gordos, e, ao ser atendido por um funcionário bocejante, ao pedir um empréstimo, viu que os juros eram estratosféricos. Acabou declinando do pedido. E voltou a roça da mesma maneira que foi. Sem saldo, com o cheque no vermelho, e ainda devendo o taxi que o levou até lá.
Ao abrir a porteira de sua fazendola, quase caiu de cinco. Duas pernas, dois bracos, e um cotovelo quebrado.
Pasmou-se de repente. O cunhado safado havia passado adiante todo o seu gado. O vizinho Geraldo arrematou tudinho por uns míseros trocados. Ao Chico Boa Fé apenas sobrou o velho curral vazio. Nada mais que isso.
Naquela noite chuvosa, não conseguiu conciliar o sono. Passou a noite insone. Sonhando com dias melhores. Que decerto não viriam.
Mesmo assim conservou a boa fé nos demais lobisomens. E não perdeu o nome.