Nestes dias de ócio

Não há como dizer não a estes dias perdidos entre o natal e o fim do ano. Passado o dia comemorado pelas crianças do mundo inteiro entre seus presentes e os que não ganharam nada, no intervalo entre o dia vinte e seis até o fechar d’olhos do novo ano, estou aqui no consultório, desde as seis da manhã a escrever, solitário, sem a presença amável de minha secretária, a espera de o telefone tilintar (agora o inesperado aconteceu).

Parto de aqui, não só da cidade que amo tanto, como do país onde nasci, e espero que melhore no próximo ano, tantas coisas hão de ser endireitadas, no próximo dia vinte e nove. A dois dias da mudança de ano.

O destino será a ilhota de Aruba. Um território autônomo Neerlandês, no Caribe, ao largo da costa Venezuelana. Seus vizinhos mais próximos são – Curaçao, São Martinho e a península de La Guajira. A capital de Aruba é Oranjestad. Todo este paraíso fica na América do Sul. Mais sobre esta linda ilhota, que pode ser percorrida sem usar autos, escreverei à volta. No dia sete de janeiro próximo.

Sei que pouco adianta ficar aqui esperando algum gato pingado aparecido de última hora para fazer uma consulta urológica. Mas, depois de um ano estafante, cheio de gastos e percalços tantos, não vai ser mal ficar a repensar nossos feitos e desfeitos, durante estes poucos dias de ócio.

Meu amado pai, ainda vivo e cheio de lucidez, nos seus derradeiros momentos de sanidade, Deus o levou tragicamente através de pertinaz enfermidade, dizia: “ócio é o começo do fim”. De fato. Ele não teve tempo para desfrutar o ócio. Pouco descansou em vida. Tomara, do outro lado da vida ele tenha conseguido nos olhar do alto em paz.

Aqui ficarei, em Aruba estarei, a repensar os rumos que tenho tomado, nestes sessenta e oito anos nos costados duros.

Não sei se seguiria os mesmos descaminhos por onde passei. Não imagino sequer se vou continuar nesta vida aguerrida. Cheia de encantos e ao mesmo tempo lotada de contratempos. Nem sequer saberei vaticinar o que vai acontecer comigo ou com minha família que amo tanto. Sempre que passo adiante da igreja matriz paro, entro alguns segundos poucos, oro por mim, pelos que me são caros, pelos pobres e necessitados, por todos os seres humanos e pelos ditos irracionais. E saio de lá mais tranquilo. Ainda pensativo. Pensando sobre o futuro, já que o passado me toma nos braços e me leva em suas asas macias ao outro lado de minha idade. Já que a mocidade foi perdida há anos e anos atrás.

Nesta atitude reflexiva, nestes dias de ócio, nesse lapso de tempo que antecede a passagem de ano seguramente não vou me deixar levar pelo enfado. Estarei mais do que nunca fazendo o que mais aprecio – escrever demasiado.

E pensar mais que o normal. Embora de antemão saiba que o limite que marca a sanidade e a louquice seja mais tênue que um fio de cabelo. E como os tenho tão poucos…

Nestes momentos dias de ócio vou poder repensar os descaminhos que foram trilhados. Se segui, por ventura o caminho certo. Se foi o equivocado confesso que tentarei voltar atrás.

Nestes dias de ócio não irei criar bócio. Tomara a minha tireoide fique do tamanho que hoje mora no meu pescoço curto. E não produza hormônios em demasia. Nem mais nem menos. E sim na medida certa para que eu seja feliz. Se não para sempre pelo menos pelos dias das minhas férias que irei curtir longe de aqui.

Nestes dias de ócio tentarei ficar longe do meu computador. Tomara consiga. Este que escrevo agora não posso levá-lo comigo. Já o outro, de tampo escuro, onde escrevo romances, este vai junto a mim. Não a ele permitirei descanso. E ele adora ser teclado tanto.

Em meus dias de ócio continuarei a sentir saudades do que ficou atrás. A sensibilidade enorme que me domina impede que não seja ao revés.

Em meus poucos dias de ócio não ficarei entregue a uma rede preguiçosa. As minhas atividades físicas me acompanharão sempre. Pelas minhas pernas andarilhas correrei mais que nunca. Tomara a inspiração não me deixe jamais.

Em meus momentos de ócio, serão apenas estes três dias e mais sete, contabilizo dez, sentirei falta dos meus amigos do Face. Como dos poucos amigos que envio meus whatsaps todos os dias cedo.

Sei que me esperam alguns dias de ócio puro. Seguirei, contudo, os sábios conselhos de meu pai. Não farei dos meus dias de ócio o começo do fim. Jamais…

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