Destemperanças de Chico Canjibrina

Beber pra ele era pouco.

Chiquinho entornava desde menino. Tomava meio litro de pinga da boa pela manhã. De tarde repetia o gole. À noite, de tão trêbado que ficava, nem a dona dele suportava seu hálito etílico. Mistura de vodca e pinga, em meio a uísque de botequim barato e álcool puro. Deste que a bomba de gasolina mistura ao combustível de carros. Do cano de descarga nascendo uma fumaça preta da cor de urubu perneta.

Aos menos de vinteanos já caía pelas sarjetas. Aos trinta foi internado como caso irrecuperável. Aos quarenta o amarelão maiúsculo já tomava conta de sua pele ictérica. Foi quando seu fígado foi trocado por um de um defunto que nunca bebeu. Daí a rejeição que o corpo do Chico barrigudo foi vítima. Até hoje, todo quase defunto Chico está à espera de outro doador. Desta feita não lhe basta o fígado. Ele tem de ser acompanhado de dois rins, uma medula óssea, um coração novinho. E inclusive, se alguém se habilita a doar algo ao velho Chico, por favor, não se esqueça de deixar junto ao receptor uma garrafa cheinha de canjibrina, a qual dá fama à pinga ruim.

Como não tinha chance alguma de recuperação, um dia, era depois do Natal, uma alma caridosa se apiedou do cachaceiro trambiqueiro.

Dona Alma Boa levou aquele estrupício para a própria casa. Num bairro elegante de uma cidade de porte mediano. Ela o encontrou deitado ao passeio. Como se estivesse mortinho da silva. Embora seu nome fosse Queiroz Galvão. As pessoas, por ser dia de troca-troca, pulavam seu corpanzil fino. Um quase lhe deu um chutão. Salvou-o um fiel canzarrão. Seu amigo único. Depois que se amasiou a bebida.

Na casa da Dona Alma Boa jurou, de pés juntos, remendar o malfeito. Prometeu nunca mais levar bebida à boca ávida por uns golezinhos de nada.

Durou menos de uma semana a promessa de Chico Canjibrina. Ao final de dez dias lá se via o traste deitado na sarjeta. Fedendo cachaça. Com o mesmo cão preto companheiro de infortúnio.

Dona Alma Boa, melhor não havia, de repente se cansou de seu bom samaritanismo.

Deixou o apiedado entregue ao seu azar etílico. Não havia vivalma viva ou morta que desse jeito naquilo.

Enfim chegou o aniversario do Chico Gole. Era o segundo dos terceiros apelidos que o alcunharam.

Não houve festa. Apenas uns refris doados pelo dono do bar que Chico idolatrava. No tal rega bofe não entraria bebida nem que a tábua apitasse.

Durou bem menos de um mês a redenção do indomável Chico. Foi numa sexta-feira que aconteceu o imprevisível previsto.

Quando o amigo do bar saiu, era madrugada, um último freguês bebericava uma Kaiser quente, Seu Eustáquio deu com o velho cliente deitado num jardim indiferente a tudo e a todos. Era só álcool aquilo.

Era quem? De novo o Chico Canjibrina. De porre novamente.

Quando enfim o levaram de volta a casa, era uma pensão de quinta, sabe o que o irremediável sujeito afirmou?

“Essa semana só não bebi arco-íris e arco e flecha”.

E arrematou: “qualquer outro arco é bem vindo”.

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