Naquelas luzinhas piscantes percebi toda a magia dos seus olhares

Vinte e cinco de dezembro encontrei todas as lojas de portas fechadas. Talvez seja o maior feriado nacional. Salvo alguma padaria madrugadora, algum hospital que não fecha as portas, uma ou outra farmácia de plantão, tudo mais está fechado. Fazendo balanço do que foi o ano quase finito. Pra uns tudo não passou de uma nostálgica ilusão. Pra outros foi um ano bom. Todos nós torcemos para que o próximo seja melhor ainda. Bem melhor, para quase todo mundo.

Fazemos figa para que o Brasil tome juízo. Não o país em si mesmo. E sim quem nos governa, ou pensa estar no timão de um barco semidesgovernado. Que haja no ano vindouro mais decoro. Menos desmandos administrativos. Mais acertos nas decisões que dizem respeito a nós. Brasileiros e brasileiras. Todos juntos irmanados num idioma tão aviltado. Que linda é a última flor do Lácio inculta e bela. Como alardeou tão bem Bilac. O Olavo poeta, um dos maiores que já li.

Ontem, não era tão tarde da noite, tive o cuidado de passar pela praça central da minha cidade amada. Ficou feericamente iluminada aquela área verde. Parecia que milhares e milhares de pirilampos ali piscavam suas luzinhas. Seria impossível capturar qualquer deles como fazia nas noites escuras da roça andando a esmo pelas estradas, observando os vagalumes estacionados nalgum arbusto à beira da estrada, tirá-los das folhas com os dedos em pinça, levá-los rapidamente numa caixinha de fósforo até a varanda da casa onde passava a noite, e, na manhã seguinte libertá-los novamente. E vê-los livres avoarem de novo. Para uma vez chegada a noite fazer toda a traquinagem de sempre. Já que a criança que morava em mim ainda vive as claras. Pensando, sonhando, que meus pais ainda vivem.

Uma vez deixada a praça central entregue aos seus admiradores o destino final foi aquela casa da Rua Costa Pereira, a de número 152.

Ali agora vive a Rosinha querida. Junto dela se revezam quatro cuidadoras. A dona Rosa, Dona Marli, dona Neila, e a mãe da Rosa, a mais idosa, dona Clarice.

Com a minha irmã Rosinha estava a Rosa. Ela é a outra mãe que substitui as duas que ela tem. Nossa mãe Rute e tia Cida. A Rosinha é feliz por ter duas mães. Que bom, digo eu, que só tinha uma. E ela se foi rumo ao céu.

Na noite de ontem, era mais ou menos sete e meia da noite, ao entrar na casa dos meus pais e da Rosinha, deparei-me com uma arvorezinha de Natal com suas luzinhas acesas. Era uma arvorezinha artificial. Não um pinheirinho verde como de costume.

A enfeitá-la inúmeras luzinhas piscavam ao derredor. Eram de várias cores. Entre elas contei: vermelhas, amarelas, verdes, e azuis.

Todas em sintonia piscavam. Eram como se alguns parcos vagalumes acesos como aqueles os quais pilhava em fragrante nas noites roceiras.

Fiquei por lá alguns instantes apenas. Deixei uma camiseta linda como presente a minha irmã Rosinha. Ela desembrulhou o regalo com um ar de contentamento a brilhar em seus olhos verdes.

Antes de deixar a casa da Rua Costa Pereira, a de número 152, olhei de novo as luzinhas da pequena árvore de Natal. Elas piscavam pra mim.

Foi quando percebi toda a magia dos olhares dos meus pais a sorrirem para nós. Meu irmão de menos idade, Fred, e a Rosinha.

 

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