Finais de ano costumam ser tumultuados e cheios de imprevistos.
Ruas lotadas, chuva a cair exageradamente, décimo terceiro em falta, estresse andando ao lado de nossas pernas, contas em dobro para os patrões, esperança de férias tranquilas num lugar qualquer, longe dos nossos problemas, e quem diz que o tal descanso em verdade vai acontecer?
Para aquele matuto roceiro, apelidado de Caxibrema, por algum gaiato gozador, no final vocês irão saber a razão de tal epíteto, tudo ia de mal a pior.
Na sua roça prejuizenta uma praga de morcegos fruteiros deu fim a sua plantação de pêssegos. As pobres frutas, ainda por madurar, eram chupadas como o garoto chupador de mangas faz deixando apenas os caroços lambidos de fora. Limpinhos como bunda de nenê. Depois do banho matinal.
A melhor vaca do seu curral perdeu, de uma só vez, todas as tetas rasgadas na cerca de arame farpado enferrujado, vindo a morrer de tétano uma semana depois. A potrinha pampa em castanho de branco teve um olho perdido por culpa de um berne vencido. E ela, em saúde perfeita foi avaliada na soma polpuda de cem mil reais. A pastaria recém-brotada foi invadida pelo gado do vizinho que raspou até as raízes deixando nada sobre nada na terra desnuda. A roça de milho não vingou. Por culpa da estiagem imprevista que deixou todos os vizinhos a chorarem dada a sacanagem de quem cuida das torneiras do céu azul que ficou assim por meses e meses enfim.
Caxibrema, mesmo sentindo na pele cascorenta todas as vicissitudes do clima não desanimou. Replantou a roça de milho. Desta vez não esperou a água cair do alto. Sugou a mesma do rio manso que corria logo atrás e irrigou a rocinha prejuizenta. Mas, dada à pressão frágil da bomba instalada, era de baixa propulsão, a água levada do rio a roça de milho não foi suficiente para salvar a plantação. A vaca morta foi comida pelos urubus. Em lugar da linda Braúna apenas restou uma ossada branca e uma cruz. A eguinha pampa acabou ficando órfã. A égua linda que a gerou quebrou a perna no mesmo mata-burro onde atolou a avó equina que hoje mora no céu dos cavalos, éguas, jumentos, mulas e equivalentes. O pasto invadido foi abandonado para sempre. Ali hoje só existe terra, pedras, ervas daninhas, e coisas e loisas sem serventia para dar de comer aos animais.
Tudo na roça do infeliz Caxibrema passou a ser nada. Um lago seco perdido nos cafundós onde Judas perdeu as botas. Furadas.
O Natal se avizinhava. Caxibrema olhava pro céu e não via Nosso Senhor Jesus Cristo. Apenas avoavam na infinitude azul as avisgourentas chamadas de urubus. Indicio peçonhento de coisas ruins ou bichos mortos.
Sem ninguém a acompanhá-lo em sua tristeza torta, nem parentes ele tinha, Caxibrema enfiou os cornos na bebida, era canjibrina, cachaça da pior qualidade, uma namoradinha, a única que conseguiu na sua solitária vida enfeitou-lhe a careca com um par de chifres enormes, e mil e mil problemas entulhavam-lhe a cabeça cheia.
Foi quando o safado do velho Nicolau, dele nasceu o apelido Caxibrema.
Cachaça, xifre, e um caminhão de problemas. (xifre com xis mesmo).