Agora o sol brilha forte ao fundo, na linha do horizonte da minha janela. Terei em breve de abaixar a persiana para que a tal luz intensa não ofusque tanto a minha retina como deixe a inspiração fugir pelo mesmo lugar. Sob o clarume do sol não é a melhor hora de observar pirilampos. Todos os meninos bem sabem que a hora boa é durante as noites escuras. Quando a gente saía de casa, em noites estreladas, com uma caixinha de fósforo de qualquer marca a fim de capturar, nem que por poucos instantes um daqueles besourinhos incautos, que se deixam pegar com dedos em pinça.
Um dia comigo aconteceu um fato inusitado. Foi há pouco tempo.
Na minha rocinha encantada, agora arrendada sem tempo de terminar o aluguel, quando passei a noite na casamarelazul, como perdi a vontade de dormir deixei a porta da cozinha com uma lanterna ligada.
Subi o morro agudo com ela acesa. A fim de caçar vagalumes. Uma vez lá no alto da colina deparei-me com duas luzinhas unidas pelo traseiro. Pé ante pé acheguei-me a elas. Eram dois vagalumes namorando. Unidos pela parte iluminada de seus corpichos alongados e duros. Com delicadeza extremada apanhei-os em bolo na palma da mão. Eles não se desgrudaram. Ao revés. Pensei tê-los vistos sorrirem com aquela luz amarela tiquetaqueando como um relógio de cuco velho. A seguir inseri os dois pirilampos na caixinha de fósforo vazia. Se não me logro era da marca Fiat Lux. Tive o cuidado de deixar uma fresta ampla na caixinha de fósforo. Não fechei a tampa por completo. Desci com a gaiola improvisada o morro em vertiginosa descida. As duas luzinhas piscavam mansamente.
Dez minutos depois, já era quase manhã, o sol já mostrava seu sorriso amarelo, como agora se faz, deixei a caixinha de fósforo sobre a mureta do alpendre. E desejei bom fim de noite aos dois vagaluminhos pombinhos namoradinhos.
Na manhã desperta voltei a ver onde e como estava o insólito casal. Eles ainda estavam abraçadinhos, com as duas luzinhas acesas, sorrindo em minha direção. Destampei de vez a caixa de fosforo. Para que eles, os dois vagaluminhos, avoassem de vez para sempre. A fim de enfeitarem outra noite escura num dia seguinte.
Um dia longo se fez ausente. Outra noite aconteceu diferente. Fui de novo caçar pirilampos. Mas nada de encontrar o casal feito um só.
Fui até o mesmo lugar onde estavam unidos pelo rabo os dois amantes. Os mesmos que passaram a noite escura na caixinha de fósforo Fiat Lux. Debaldes foram as minhas tentativas vãs de encontrá-los de novo. Ambos não estavam em nenhum lugar. Foi quando meus olhos se voltaram ao céu. E foi lá no alto que vi, juro ser verdade, duas luzinhas piscantes unidas pela parte do traseiro. Era uma linda estrelinha piscante. Eram os dois vagalumes que viraram estrelas. De tanto se amarem.
Hoje, vinte e um de dezembro, acordei bem antes do nascer do sol. Ele ainda dormia junto a algum planeta. Ou algum asteroide errático, um astro qualquer.
Estava escura a manhã. Ao ver o relógio que trazia no pulso ele indicava cinco de um novo dia. Logo o ano velho se desfaz. Em suas cinzas surgirão esperanças de um ano novo melhor. Tomara.
Ao passar pela igreja matriz da cidade, com sua torre alta iluminada, voltei às lembranças a quando fui criança. Caçando pirilampos nas noites enluaradas.
Aquelas luzinhas piscantes bem no alto da torre da igreja não eram pirilampos. Eram simplesmente enfeites de Natal. Que logo serão retirados pelas mesmas mãos que as colocaram. Ainda bem que meus pirilampos não serão nunca das noites banidos. Ainda melhor que inda bem. Ainda melhor que o menino que ainda mora dentro de mim oxalá não se despeça jamais.