Embora no ostracismo Doutor Sapatinho Velho não se sentia infeliz

Quando a gente chega a certa idade, impossível prever qual seria, é costume os colegas deixarem-nos no estaleiro. Como um navio de gordo calado ancorado num banco de areia, prestes a naufragar.

Assim os mais velhos, mais experientes, com tantas contribuições dadas ao seu contingente profissional, quando a barba embranquece, nos seus olhos baços se imaginam sinais de cansaço, tem-se, afoitamente, impensadamente, a intenção de o substituírem por outro da metade de sua idade. E como o tal sapatinho velho, gasto na sola, com a parte do couro de cima ainda em sua melhor forma, se sente olvidado. Por vezes até injuriado. Muitos, mais jovens, o prejulgam um reles coitado. Em alguns casos fortuitos a depressão toma pé daquela alminha sofredora. E ao sapatinho velho só lhe resta o consolo de se juntar a outros aposentados, precocemente, pois ele ainda tem muito a dar de si a outros menos experimentados e provados pelos anos plenos de vida profícua que ainda lhe restam.

A partir de aí os bancos da praça do jardim passam a ser o companheiro único do seu abandono. Outros jubilados fazem-lhe companhia. Apesar de alguns deles não entenderem pra que serve o comprimido de Viagra, pois o sexo já foi deixado na prateleira do olvido, há tantos anos atrás.

O Sapatinho Velho a que me refiro deu tudo de si naqueles velhos anos que a folhinha do tempo arrancou.

Acordava ao despertar da manhã. Ia ao centro cirúrgico ainda vazio operar tanto os não pagantes quanto aqueles que podiam deixar alguns tostões miúdos na sua conta bancária sempre no vermelho. Não se desgrudava do telefone nas noites indormidas. De vez em quase sempre o aparelho, ainda não haviam os celulares, tilintava nervoso na cabeceira da cama. Já com a metade dos olhos abertos o doutor Sapatinho Velho tomava seu calhambequezinho na garage da casa alugada, ia com ele de volta ao velho hospital, não tão moderno como hoje se encontra, deixava o carrinho de segunda mão estacionado ao relento, reoperava o paciente gemendo pela sonda obstruída, consequente a enormes coágulos que não passavam pelo orifício fino da sonda de demora, e voltava a casa, com olhos grudentos de sono, para voltar ao trabalho logo ao sol raiar.

E o nosso hoje Sapatinho Velho se desdobrava entre os três hospital de sua cidade amada. Comparecia pontualmente, como ainda acontece, aos seus empregos de pago modesto. Para engordar a renda ainda ficava no consultório nas horas extras. Atendendo a consultas. Umas eram pagas. As demais ficavam no fiado. Pois ainda, naqueles verdes anos, não existiam os planos de saúde. Que pagam tanto mal.

Quarenta e muitos anos se passaram. O nosso doutor Sapatinho Velho continuava na sua melhor forma. Aprendeu a escrever. E bem. Aprendeu a praticar atividades físicas, como poucos esculápios jovens conseguem. Mas, pensando-o idoso, sem capacidade para retirar próstatas enormes, ou rins sem conserto, os colegas mais jovens inseriram outro de mesma especialidade em seu lugar. A partir de então todos os pacientes pagantes eram encaminhados ao colega ainda em cabelos negros. Não se sabe até quando.

E o nosso provado Sapatinho Velho ficava apenas no seu consultório atendendo os enfermos que nele acreditavam. E, como ainda não tinha idade para se aposentar, longe disso, ainda comparecia a duas unidades de saúde pública para não deixar a renda baixar tanto assim.

Os plantões o nosso doutor se dava o direito de não tê-los como incumbência. Ele se desdobrou entre eles durante a maior parte dos seus anos que não eram tantos.

Agora o nosso doutor Sapatinho Velho apenas fazia o que lhe dava gáudio. Era um direito pra ele inalienável.

Dezembro, desse ano, chegou com suas renas em carreira rápida. Em poucos dias o ano findava.

Uma festa de arromba, organizada por gente do mesmo hospital, foi agendada para a semana que a folhinha arrancou. Não foi lembrado nome do Doutor Sapatinho Velho para a efeméride de congraçamento. Entre médicos mais jovens do mesmo hospital onde sempre deu de si o melhor que podia o Doutor Sapatinho Velho.

O ano mudou de trinta e um a primeiro de janeiro. Novo ano, jovens propósitos de mudanças.

Mas nada muda na marcha lenta dos dias. O doutor Sapatinho Velho, agora escritor laureado, ainda médico dotado de bom conceito na cidade, se desdobrava entre o consultório ainda bem procurado, a literatura de ótimas letras, uma rocinha encantada, a qual amava muito, com a mesma intensidade com que amava a família.

Mesmo tendo sido esquecido pelos colegas mais jovens, doutor Sapatinho Velho era muito feliz. Muitíssimo feliz. Apesar da omissão dos demais companheiros de farda não mais branca como nos idos anos.

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