Sono sem sonho

Passar horas e horas recostadas ao travesseiro, deixando os lençóis num redemoinho revolto, o pobre colchão amarfanhado, acho não apenas um desperdício de tempo. Penso ser a noite um edredom de coisas insossas.

Sonhar então não faz parte das minhas noites curtas. Estreito as noites como o safado comerciante de elástico estica a fita quando da sua venda a uma pobre costureira incauta. Para que a medida espiche. E os anteriores dez metros não passem de míseros cinco.

Sono pra mim não é essencial como a inspiração se tornou de tempos pra cá. Caso me fosse possível reduzi-lo a nada confesso que o faria. Contrariando os conselhos que dormir é fundamental. Em breve tentarei adequar a minha cama um espaço como o que tenho a minha frente. Um apoio ao computador para que a noite seja mais atraente. Deveras tenho pouquíssimo sono. E quando o sono chega, inserido por uma quarta parte de uma pílula para dormir, os sonhos não chegam. Em verdade ressono sem sonho. E se fosse sonhar, com que seria? Com nada. Já que a linda realidade do clarume do dia pra mim é um sonho por demais colorido. Com todas as cores que se derramam no arco-íris quando ele aparece na linha do horizonte tão lindo.

Não sei bem a razão de pessoas dormirem ao relento. São cada vez mais nestes dias que marcam dezembro. Os em desabrigo em maior número talvez se explique pela crise. Ou pela falta de emprego. De achego em seus próprios lares. De falta de perspectiva de felicidade em suas próprias moradas. O fato retrato é que mais e mais pessoas, jovens, crianças, velhos, se amontoam debaixo de marquises, falsas protetoras do sol em seu clarume máximo, da chuva que ora cai nas cidades e no campo, debaixo de mantas toscas, sem ao menos um apoio as suas cabeças dorminhocas.

Como explicar que eu, dormindo numa casa dotada de todo conforto, numa cama enorme, sobre um colchão macio, recomendado por gente que entende de dores na coluna, não consiga ali ficar senão quatro horas, se tanto, e outras passam mais tempo dormindo sobre superfícies duras, sem o afago carinhoso de uma companheira?

Foi essa verdade por mim constatada num dia antes. Acredito ter sido trás anteontem.

Ao subir por uma ruinha esquecida pela administração pública, de volta de um posto de saúde central, sempre caminhando sempre, deparei-me com um desabrigado dormindo a sono profundo quase despencando de um passeio apenas no concreto. Em meio a restos de sacos de lixo, latas várias ali se mostravam, garrafas e mais garrafas vazias de cerveja davam ao logradouro um cheiro pútrido, o mato crescia ao derredor daquele corpo com aparência de morto.

Não houve como, como médico que sou, não me apiedar daquela situação terrível que se deparava defronte aos meus olhos inquiridores.

Parei minhas pernas por alguns instantes. Não foi movido por curiosidade apenas. Sentimento peculiar aos escritores. Foi sim um impulso momentâneo. O médico que habita dentro de mim queria ajudar ao dorminhoco.

Era quase onze horas quando acordei, com sutileza, quem ali estava ressonando. Fi-lo com delicadeza usando a mão direita.

A pessoa, que se mostrou jovem, pela cara barbuda seriam menos anos que em realidade seriam, disse-me, bocejante de sono, que era morador de rua recentemente aqui chegado.

Ele viera de uma cidade do nordeste. Do interior do interior do Piauí.

Que fora forçado a deixar família, pai, mãe, uma filha pequena, não fez referência a esposa, ou se alguma mulher ainda tinha lugar em sua vida. E que partira no primeiro pau de arara rumo ao rico sul. Pensando se dar melhor.

Perambulou errático de del em dedeu. Não conseguiu trabalho. Emprego, nem em sonho. De começo catava latinhas de alumínio. Mas, num dia destes, quando se preparava para vender seu produto, foi levado preso a cadeia, confundido com um marginal muito parecido a ele mesmo. Só que o logro foi percebido apenas um mês depois.

De novo nas ruas, sem onde ir, já que na cidade onde apeou pela primeira vez não tinha onde passar as noites, bateu em tantas portas fechadas que nem se lembra de quantas.

Mais uma noite na rua. Dormindo à luz dos postes. Sem ser molestado. Felizmente. Por outros drogados, que se tornou de repente.

Ficamos cerca de vinte minutos em nossa conversa amistosa. Jesus me contou fatias de sua vida. E que vida era aquela!

A última pergunta que a ele destilei, foi se o mesmo sonhava. Sabia que pelo menos ele dormia um sono real.

Despedimo-nos com sua fala macia: “sabe, doutor, não sonho. Apenas ressono. O sono que o senhor viu é um sono movido a drogas e álcool. Combustíveis que tentam me fazer esquecer a minha desgraça de ter nascido sem querer”.

 

 

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