Hoje acordei mercê de excelente bom humor. Também pudera! O dia estava esplendorosamente lindo. Céu azul, sol brilhando forte naquela hora bem cedo.
Chovera em pingos razoáveis a noite passada. Tudo parecia sorrir para todos nós. A exceção dos desempregados. Dos pobres de panelas e despensas vazias. Dos desassistidos pela sorte. Das mães desesperadas que perderam filhos na vida equivocada das drogas. De todos que almejam ter bom destino e ele lhes vira a face risonha.
Hoje, ao chegar ao consultório, bem antes das sete da manhã, nesta semana que antecede o Natal, como o sol teimava entrar ofuscando-me os olhos, dobrei-lhe a vontade acionando as venezianas da persiana verde que faz às vezes de destampa e deixa entrar os raios solares.
Foi meu primeiro desidério, de frear um cadinho a luz do sol, também chamado propósito do fecho do ano que se despede. Em menos de duas semanas sai ano e entra novo. Não sei como será dois mil e dezoito. Não posso me queixar do que o precedeu. Ele foi bom nalguns aspectos. Noutros, nem tanto. Fiquei um ano mais velho no dia sete deste. No seguinte ficarei mais perto dos setenta. Meu pai sobreviveu apenas mais sete desta data trágica. Quantos ainda me restam? Não sei. Quem sou eu para vaticinar meu destino? Se nem sei cantar com exatidão o hino do meu país natal?
De novo tive de regular as pás da persiana. Para controlar o ímpeto do sol que adentra por ela. Caso o permita o vidro espelhado do meu aquário fica cheio de mofo. Não sei o que pensam os peixes aquarianos sobre o sol. Se eles nadam continuamente. E respiram debaixo d’água sorvendo as borbulhas de oxigênio criadas artificialmente por uma bomba propulsora. E idem os raios de sol turvam-me a turbidez das minhas retinas.
Ao descer a rua em direção a onde estou percebi a correr vagarosamente uma mulher obesa. O seu propósito por certo seria emagrecer metade dela até o ano que vem.
Outros propósitos que não me saem da cabeça é me tornar reconhecido país afora no mundo das letras. Por aqui só não basta. Desejo que meus livros se tornem adotados sem que eu esteja presente. Decifrando em miúdos: quando deixo alguns deles solitários em livrarias em qualquer delas não são vendidos. Eu os vendo pessoalmente. Eles, pobrezinhos, não tem o poder de persuasão que eu tenho.
Tenho um propósito, não só meu, que a chuva caia de forma eloquente, sem fazer estragos, no ano próximo. Que as roças de milho plantadas recentemente fiquem bonitas como a mulher rendeira a tecer o seu tear.
Que a pastaria cresça exageradamente. Que ela faça a vacada engordar e procriar ainda mais. Não a exemplo de pessoas em dificuldades financeiras, que sua prole seja controlada. Não com o conceito de onde come um comem dois ou mais.
Tenho um sorridente propósito de ver flores desabrocharem na minha casa nova. Na roça que tanto idolatro. Como estendo as palmas das mãos abertas a boa gente da roça.
Faz parte dos meus propósitos ser melhor a cada dia que passa. Se não perfeito ser bom um cadinho mais seria bom demais.
Outro não desproposital propósito é lançar mais um livro este ano que de hoje a dezenove dias nasce. É como se outro filho nascesse. A alegria e emoção se equivalem iguais.
Não tenho como propósito emagrecer. Como a senhora que subia a rua vagarosamente correndo lento. Gostaria de acumular anos e saúde como até agora foi. Meu propósito de continuar operando casos de urologia me faz tão bem que nem imagino quanto. Aposentar o bisturi? Jamais. Já disse que médico não aposenta. Isso compete aos pacientes.
Meus propósitos são tantos, tantos, que, se ficasse aqui, delineando quantos, ficaria o dia inteiro sem dar descanso ao computador. E olha que a partir das oito o urologista entra em cena. Consultas agendadas felizmente estão na sala contígua. Ainda são muitas. Espero por muitos anos mais.
Nesta derradeira linha estendo meus propósitos de mudanças boas a vocês todos. Que tenham um final de ano rico em bênçãos do Pai do Céu. E um ano novo melhor ainda. Se possível for. E seus propósitos disserem amém.