A gente que adora escrever, deitar no computador sofredor causos e loisas do nosso rico cotidiano, tem vezes que pensamos deixar o teclado do computador descansar. No meu caso nem a férias ele tem direito. Todos os dias da semana ele trabalha duro. Nem sei o que passa pela caixa preta da minha CPU. O monitor, que me olha de olhos arregalados, deste nem desejo saber a opinião. Tomara os três, o teclado negro, a CPU da mesma cor, o monitor espaçoso, se não me aturam que pelo menos não travem tanto. À hora que insiro meus textos no site – www.paulorodarte.com.
Um dia destes, creio que na sexta passada, dezembro já em seu meio, ano quase no fim, ao adentrar os portões de onde moro, deparei-me com um jovem casal. O rapaz, já bem o conhecia. A garotinha morena, de olhar inteligente, creio que não.
Parei-os sem pressa. No alto nuvens indicativas de chuva anunciavam a queda de água. Não houve como não me interpor junto a eles. Quase na portaria do condomínio. Havia escrito uma crônica naquele rica manhã. Ela consta no meu site como sendo a mais recente.
Sem perguntar se ambos apreciariam escutá-la fui logo abrindo minha página na internet e passei a ler a crônica de imediato. Quase não fui interpelado durante a leitura que durou menos de quinze minutos. Salvo pelo moço dizer se por acaso havia escrito tudo aquilo numa só manhã. Afirmei que sim. E que, nalguns dias, quando tenho tempo, escrevo até quatro. Entre uma consulta e outra.
Ao final da leitura, já que a chuva não descia, ouvi da linda namorada, ainda sem tendência profissional definida, eram bem jovens os dois, uma exclamação que me fez mais animado em escrever com tanto frenesi: “muito obrigado doutor. O senhor escreve muito bem”.
Acabei de descer a rua até minha casa pensando em gente que gosta de ler e outros que nem em sonho sonham em escrever.
Já fiz pesquisas recentes sobre o hábito da leitura. A maior parte dos entrevistados, gente que pensava ser aculturada, disse: “só leio jornais, mesmo assim a parte relativa a finanças e manchetes recentes. Ou então assuntos pertinentes a minha profissão”.
Sobre literatura, em qualquer de sua nuanças, apenas um ou dois afirmaram positivamente as suas predileções a favor.
Não me intimidei com as negativas sobre se elas comprariam um livro meu. Vou continuar meu descaminho penoso pelos livros. Páginas e mais páginas irão nascer. Continuarei a enfileirar letras uma a uma. Até o fim dos meus dias.
Já hoje cedo, domingo, dezessete de dezembro, durante uma visita rápida a um supermercado, com um dos meus livros a ser apreciado, quiçá conseguisse passá-lo adiante, minha amada esposa estava escolhendo mandiocas para levar junto às compras.
Ao nosso lado uma senhora com aparência falsa de que amava ler disse a minha esposa. Em voz alta: “eu só compro mandioca na feira. Lá tenho certeza que ela cozinha bem”.
A opinião, a qual respeito deveras, de minha Rosa era que a tal mandioca do supermercado derrete só de ver a água ferver. Não omiti a minha opinião sobre o assunto do tubérculo em questão.
Antes que nos despedíssemos da senhora fiz a ela uma perguntam em forma de questão: “o que a senhora pensa dos livros. Gosta de ler”?
Ela, sem pressa, falando pelos cotovelos e pelos sobrolhos, respondeu desta maneira: “num quero nem vê aquele punhado de letrinhas miudinhas”.
Deixei a casa das compras pensando em ir embora para Pasargada. Não que lá seja amigo do rei. Nem por ter a mulher com quem sonhei, na cama que elegi.
Mas sim sonhando em mudar de aqui. Para um país como a Argentina, ou outro qualquer, onde se mostram livrarias imensas, em distintos quarteirões. Em lugares nos quais não fechem lojas onde se vendem livros com tanta frequência. Como aqui acontece. Se desejam saber pra onde vou? Respondo sem piscar d’olhos. Longe de gente como ela. Que alardeia sua incultura. Sua aversão às letrinhas miúdas. Com um ex-presidente que ameaça voltar. Tomara no dia de São Nunca. Ou num feriado de trinta e um de fevereiro. Felizmente inexistente