De hoje a seis dias colho mais um ano em minha já provecta vida. Dos sessenta e sete passo a oito. Do dia sete a um ano mais quase bico os setenta. De aí em diante creio que irei parar de contar anos. Pois não sei como vou estar de aí em diante. Mais velho por certo estarei.
Ah! , seu eu pudesse, apenas minha imaginação permite, desenvelhecer cadinho a cadinho. Dos atuais sessenta e sete, ao revés de mudar o sete ao oito, ir atrás. Continuar a ver decrescerem os anos, deixar no passado os desenganos, tornarmos jovens novamente até, de aqui a anos e anos, voltar a ver o mundo de novo besuntado de líquido placentário oriundo da placenta da nossa mãe.
Ontem tentei fazer o tempo retroceder.
Estava correndo na esteira, daquela academia costumeira, depois de passados inexatos sessenta minutos, numa velocidade compatível com minha idade, saltei dela e fui em direção a outra. Exatamente a minha frente.
Naquela corria uma linda mocinha. Cabelos negros soltos. Pernas fortes e morenas. Um lindo traseiro fazia coro a toda a beleza e juventude daquela ainda menina.
Fiquei instantes observando-lhe a juventude. Ela, pelas feições a mim passadas deveria ter mais ou menos menos de vinte anos. No momento exato em que ela parava de correr a ela perguntei: “menina. Qual a sua idade”?
Como já a conhecia de dantes a simpática já não mais criança me respondeu, com um lindo sorriso na face: “hoje estou dezessete. Amanhã um ano a mais”.
Foi quando me passou pelas ideias uma coisa a qual pensava ser possível. Caso eu corresse junto a ela, distância ainda desconhecida, seria possível desvestir-me de alguns anos? Ela, aos dezessete. Eu aos sessenta e sete. Poderia diminuir minha idade da conta de dezessete? E elazinha? Adicionaria dezessete a mais na sua vida?
Um dia, ao caminhar ao lado de uma linda mocinha, muito parecida a de ontem, da minha casa ao colégio onde ela estudava, ela contava quinze janeiros ao seu calendário de vida. Eu tinha exatos cinquenta e sete anos. Fomos numa prosa amistosa por mais de quinze minutos. Assim que nos despedimos senti dentro de mim uma sensação estranha. Era como se tivesse voltado quinze anos atrás. Dos atuais cinquenta e sete voltei quinze anos a menos. Essa doce ilusão se desfez logo a seguir. Continuei meu caminho de volta a casa por ter me esquecido de levar a carteira. E eu precisava de documentos que existiam só dentro dela. Na volta fui caminhando junto a uma idosa. Ela me disse ter setenta e oito anos. Já bem velha, carcomida por rugas e cabelos bem brancos.
No momento exato da despedida foi quando percebi meu logro. Os anos que pedi emprestados a linda mocinha, a dos quinze aninhos, os quais pensei ter diminuído aos meus cinquenta e sete, voltaram ao ponto de antes. Esta conclusão notória me fez ruminar. De nada adianta querer desenvelhecer. O caso de Benjamin Button foi, nada mais, nem ao menos, história de ficção.
Não me apoquenta o fato de ficar mais velho ainda de hoje a seis dias. Tomara a inspiração e a saúde me sejam ofertados graciosamente como presentes de aniversário. Já que não posso falar em desaniversário, que seja um ano a mais.
Sei que terei de enfrentar desafios de hoje a frente. Coisas e loisas inerentes a maior idade. Tomara seja melhor idade.
Como presente de aniversário não quero muleta. Nem andador. Muito menos babador ou fraldões. Tomara não sofra AVC. E nenhuma sequela de doença degenerativa ou incapacitante. Que me seja permitido andar pelas próprias pernas. Desejo descarecer de alguém para me ajudar a andar. Correr, se possível ainda for, Deus me permita assim proceder. É o que aprecio mais fazer.
Aos sessenta e oito, de aqui há seis dias apenas, tomara seja ainda capaz de escrever. Não sei quantos livros mais quero publicar. Até agora foram dezesseis. Já tenho bem começado outro romance – Rakel. Sem contar as crônicas escritas, mais de dez mil penso ter, caso fosse com elas publicar livros, a estante que fica por trás de mim não iria caber tantos livros mais.
Sei que terei de enfrentar desafios na minha velhice afora. Mas outros, como eu, o mesmo terão de viver e conviver. Bem ou mal. Penso ser.
Até hoje as doenças não se atreveram a me montar. Mas, se elas vierem, inoportunas mazelas, que apareçam. Vocês, doenças, sim, metem-me medo. Como tenho medo da noite. Principalmente as escuras.
Sei que os desafios da idade madura farão parte dos últimos dias aqui neste lindo planeta. No entanto estou pronto a enfrentá-los. Sou um sonhador. Um valente. Um doutor escritor.