Hoje o sol entrou de mansinho pelo vidro da minha janela. A princípio alegrei-me com tal visita inesperada, já que o dia amanheceu cinzento, de repente fez-se a luz. Mas, instantes depois a mesma luz do sol passou a incomodar o meu escrito. Levantei-me da cadeira onde passo tempos assentado, defronte ao computador, retornei as folhas da persiana ao ponto de antes. Para impedir que o clarume do astro rei ofuscasse minhas retinas e turvasse-me a inspiração fecunda, que sempre brota dentro de mim pelas manhãs bem cedo.
O que fiz para resolver o impasse da luz do sol demasiada? Simplesmente abaixar a persiana verde. E regulei assim o lusco fusco intermitente dos raios de sol que, ora entram serelepes, ora deixa a sala escura. Como se move a vida. Entre altos e baixos de alegria entremeados à tristeza pungente.
Quantas e quantas vezes a gente passa sem saber o que fazer em certas situações.
Quando meninos novinhos nossa amada mãe nos ensina o que fazer. Uma vez crescidos esta decisão cabe a nós, tão simplesmente. Já idosos, decrépitos provectos, ao dissabor de doenças degenerativas como o Alzheimer, não mais sabemos o que fazer. Por isso recorremos aos mais jovens. Embora de menor idade a sabedoria pode ainda não ter se apossado de suas mentes pueris.
A vida nos coloca em encruzilhadas perigosas. No quesito escolha da pessoa com a qual passaremos a vida inteira quantos de nós elegem a Maria enquanto a escolha certa poderia ser a Amélia a nossa mulher de verdade?
A hora da escolha de qual profissão trilhar, que indefinição toma conta dos jovens. Se enveredamos pelo caminho da medicina ou se a engenharia deveria ser a eleita para o futuro incerto são questões por vezes mal resolvidas. Que pode ser o resultado pelo insucesso profissional, do qual nos arrependemos tarde demais.
De novo os raios de sol entram sofregamente pela minha janela. O que fiz para regular-lhe a luz? Simplesmente, como da vez primeira, levantei-me da cadeira de espaldar alto e abaixei as folhas verdes da persiana para que o sol não interfira na minha crônica de hoje.
De tempos antes tenho tentado incutir a luz nas mentes obscuras de cidadãos da minha querida Lavras, tida Cidade dos Ipês e das Escolas.
Um livro a cada ano nasce. Até hoje contabilizo dezesseis. Não tenho a conta exata da contabilidade dos prejuízos que a linda literatura me dá. Não importa. Tenho outras fontes de receita. O prazer de ter leitores, admiradores dos meus textos, dos meus livros todos, compete com o dissabor de gastar somas enormes na publicação de livros sem o esperado respaldo em números.
Já disse, e escrevi, que ser um bom profissional de saúde, de ter-se formado em engenharia, edificar prédios enormes que podem balançar e não cair, é causa fácil de ser conquistada.
Conquanto escrever com maestria, conseguir uma façanha enorme de ter leitores embevecidos que não desgrudam os olhos de textos tantos, é mais do que difícil. Entre mais de mais de mil nasce um. Apenas e tão somente um.
E felizmente, sem falsa modéstia, me incluo entre estes afortunados agraciados com o talento de escrever.
Mais uma vez indago. O que fazer para que as pessoas saiam sua inércia cultural, passem a ter amor aos livros, deixem o whatsap descansar um cadinho e passem a ter prazer de passar os olhos nas páginas inspiradas de um romance, de um livro de crônicas que seja, e se tornem leitores contumazes, ou observadores natos da natureza linda que Deus nos brindou.
Ontem, tarde de tarde, deixei o consultório rumo a capital do meu estado. Não aquela Belo Horizonte que apreciava tanto nos tempos verdes da Universidade Federal das Minas Gerais.
E sim noutra BH mais trepidante, bem mais movimentada, de trânsito conturbado, onde se paga uma soma gorda para estacionar o carro, mesmo sob a impressão de que algum ladrão, assim que você chegar ao estacionamento, já levou o carro com ele, deixando a você a desilusão de ter a chave na mão e o desamor no coração.
A intenção da viagem de bate e volta foi a de levar meu livro novo aos olhos de colegas médicos escritores. A Sociedade Mineira de Médicos Escritores se reúne na mesma sala há tempos curtos.
A cada visita aos amáveis pensadores sinto, dentro de mim, um desencanto imenso.
As reuniões estão mais e mais vazias. A cada vez menos assinaturas são lidas naquela agenda.
A de ontem de noite apenas quatro delas se podia ler. Soube, com um apertume no peito, que outros membros da Sobrames haviam falecido. Ou foram vítimas de insanas enfermidades e hoje, se não ficaram inválidos o quase faz parte dos seus dicionários.
Depois de autografar apenas três dos meus livros, de ler um texto permitido, parti de volta a minha amada Lavras. Aqui chegamos quando a madrugada já se anunciava com seu frescume voraz.
Não sei o que vai ser de reuniões quase vazias como esta. Entidades meritórias como estas ( Sobrams) morrem. Como a cultura falece. Como os livros impressos agonizam freneticamente. Não docemente como deveriam.
O que fazer para ressurgir das cinzas a cultura? O que fazer para ressuscitar a literatura?
Não sei. Sobejamente em nosso país. Não sei o que fazer para mudar o status quo. Infelizmente não sei.