Catira, permuta, escambo, da algo e por aquilo recebe outra de volta, negócio, troca, são palavras afins. Elas mostram, nas suas origens quando alguém, que tem uma coisa que não quer mais, oferece o mesmo objeto, ou algo para ele sem serventia, em troca de outro. Que não mais serve ou que tenha perdido o interesse para o possuidor insatisfeito com sua posse.
Uma vez, na roça, soube que um morador de ali, desgostoso com uma vaca que perdeu um dos peitos na cerca de arame farpado, um rasgo enorme, que infeccionou, daí a produção de leite minguou. O mesmo sujeito ladino, espertalhão de mancheia, passou adiante o animal por um preço vil. Era uma vaca em final de carreira. Mais velha que sua bezerra já anciã. Que de tantas crias foi aposentada e foi ao açougue como carne de boi embora sendo vaca.
No mesmo lugar ermo, onde quem passa por lá com certeza se equivocou de caminho, outro capiau esperto, ao ver que a sogra a ele pesava muito, deu a velha como troca por uma carroça novinha. E acabou passando manta no vizinho de pasto. O velho Tião. Que acabou com duas sogras nas costas. E como as duas soltavam flatus às vésperas de São João. E quando comiam demais na hora da janta e roncando peidavam de hora em minuto.
Quantas catiras fui testemunha na roça que amo tanto. Dali não tiro lucro. Na caçamba da minha caminhoneta velhusca levo ração para dar às vacas, aos dois cavalos que ali estão, as galinhas comem milho local, nascidos da roça plantada pensando na chuva. E quando a chuva não cai aumenta o prejuízo. Tenho de repetir a planta. Olhando pro céu e pedindo ao pai dele que olhe por nós. E destampe as torneiras das nuvens cinzentas. Pare com a economia de água que cai graciosamente na terra onde moramos.
Uma comadre, também nascida e criada na roça, de nome Maria Amélia, que vivia com a mãe dona Estela e com o marido resmungão, de nome Antenor, vivia desconsolada com os maus tratos do marido sem educação.
Nela batia como rabo de tatu morto atropelado pelo velho caminhão leiteiro. Era triste ver os vergões vermelhos nos costados magricelas da pobre infeliz dona Maria Amélia. E as olheiras roxas que ladeavam os dois olhos da esposa mal amada.
De tão magrinha que era ela mal se via um palmo de gordura em sua barriga funda. As pernas, se é que aquelas varetas poderiam ser chamadas de pernas, mais pareciam dois bambuzinhos feitos varas de pescar. Na face macilenta sulcos profundos lembravam quando o arado tange a terra úmida depois de uma chuva mansa. Os cabelos brancos recordavam paina da paineira.
Eram três ou mais surras por dia. A primeira ao cantar do galo. A intermediária na hora precoce do almoço. A derradeira, isso se a pobre desinfeliz mulher não alardeasse muito ao levar a chibata nas costas, acontecia nas voltas da reviravolta da madrugada.
Embora os vizinhos de pasto fossem testemunhas oculares dos maus tratos eles se calavam. Para não serem convocados como circunstantes no dia da audiência conciliatória.
Dona Maria Amélia amava cães. E não tanto os animais que os dizem possuir. Nos fundos da sua casinha tosca moravam dez desses animais fiéis. Eram viralatinhas. Cãezinhos desovados ali por gente da cidade. Que professavam amor aos cães filhotes. Que, uma vez crescidos, quando seus dejetos aumentavam de volume, a eles deixavam ao desabrigo. Numa estrada qualquer, ou num lugar desconhecido.
Um destes cães maiores, um peludo enorme, era o xodó da infeliz Maria Amélia. Os dois confessavam um carinho enorme um pelo outro. Seu nome era Bruno. O mesmo nome herdado de uma antiga paixão de menina da ex- menina Maria Amélia.
Num belo dia de sol, depois de uma noite chuvosa, a seguir de uma surra bem dada pelo marido da infeliz senhora, Maria Amélia tomou uma inarredável decisão. Seria agora ou nunca. Antes só que mal amada.
Na manhã seguinte, ainda sentindo na pele marcada pelas chibatadas com rabo de tatu a dor das cicatrizes recentes, deu ordem de despejo ao sujeito de maus bofes, chamado de marido.
Ele, ao contrário do que se previa não relinchou ao “vai com Deus”. Meteu o rabicho entre as pernas e azulou.
Nunca mais se teve notícias dele. Ainda bem, menos mau.
Um mês depois nos arrabaldes aconteceu uma efeméride das grandes.
Foi o casamento do ano. Quem foi o noivo? O cão Bruno, elegantemente vestido num terno escuro. E como estava radiante a noiva! Dona Maria Amélia usava um vestido de noiva de marca de grife. Com uma cauda longa, enorme, que foi amparada pelos outros cães de sua lavra.
Bruno e Maria Amélia foram felizes para quase sempre. Só não tiveram filhos por incompatibilidade de genes.
Foi ou não uma troca boa?