A mim não

A incerteza creio ser prerrogativa dos mais jovens. Salvo honrosas exceções.

Explico tal dito pelo seguinte motivo: ainda sem carreira definida, perdidos nas encruzilhadas da vida, os jovens sofrem a sua maneira com tal indefinição.

O que fazer ao crescer? O que serão no porvir? Que caminhos irão trilhar? Se serão médicos, engenheiros, padeiros madrugões, e por aí irão. Esquecem-se eles que podem agregar valores. Serem, ao mesmo tempo, bons médicos, bons engenheiros, excelentes feitores de pães, além de juntar as tais profissões, das tantas que existem, se tornarem, um dia, escritores como me tornei, atletas corredores ou de outras modalidades tantas, orquidófilos entendidos naquelas lindas plantas, enólogos famosos, e outras mais distintas aptidões que o ser humano é capaz. Camaleões que somos. Sempre com uma carta coringa na manga da camisa. Afeitos não apenas a fazer isso bem, como aquiloutro da mesma forma.

Muitos jovens ainda são vítimas das encruzilhadas da vida. Uns vão pelo caminho certo. Demais se perdem por descaminhos errados. Uma vez por eles trilhados com certeza a volta pode se tornar impossível. Aí será tarde demais.

Sempre que passo pela porta de um colégio, como hoje aconteceu, os portões ainda estavam fechados. No dia de hoje. Um grupo de jovens alunos ali estava postado. Muitos como eu com os ouvidos tapados por fones de ouvidos. Ligados aos celulares. De outras vezes ali adentrei. Na intenção de falar aos alunos de turmas mais adiantadas sobre a minha especialidade, sobre literatura, de deixar na biblioteca da escola meu derradeiro livro.

Hoje não o fiz.

Era bem cedo. Creio, se meu relógio não me engana, ao redor de seis e meia da manhã. Desta terça-feira vinte e oito de novembro. Dia cinzento, apenas algum indício de que o sol iria mostrar seu sorriso um cadinho mais tarde. Chuva fina poderia cair. Alegrando a boa gente da roça. Ao revés, tintando de infelicidade os rostos dos urbanos. Gente que se prepara para as festas ao ar livre, olhando pro céu com ar de quem não gosta de indícios de chuva no alto.

Ao parar alguns minutos a conversar com tais crianças, eles, jovens ainda os são, soube que o futuro, além de provocar em suas mentes pouco poluídas indefinições múltiplas, torna-os temerosos do que irão ser.

A incerteza, o medo, podem ter feito parte do meu antanho. Hoje não mais.

Ao inquirir aqueles alunos o que pensam ser, muitos ainda não haviam escolhido qual caminho trilhar. Tal indefinição causava-lhes não apenas temor bem como poderia ser causa de depressão. Já que o mercado profissional atual, bastante competitivo, não só mete medo aos jovens, assim como a eles pode causar baixa da auto estima. Num mundo que aos fortes levanta. Aos fracos, aos menos aquinhoados de capacidade, não deve exaltar.

Já passei dos verdes anos da minha vida. A minha infância perdida não volta mais. Ao olhar atrás só vejo lembranças. Para frente não sei quantos anos me sobram. Por isso vivo o presente como um presente de Deus. Não conto as horas. Nem os minutos que passam céleres. Vivo o agora como se fosse o derradeiro dos meus dias. Aos admirar os olhinhos escuros do meu netinho primeiro Theo, admiro o que fui um dia longe.

Ao passar perto daqueles jovens, a espera das sete horas, quando o portão verde, ou seria azul? da escola abre, notei que o futuro neles mete medo.

Já que me situo na plenitude áurea da minha idade mais produtiva, penso estar voltando aos verdes anos, quando, como aqueles jovens de hoje esperava as aulas começarem, com saudade digo: “a mim o futuro não intimida. Ao revés, me faz ficar mais forte ainda”

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