Um dia, tarde cedendo lugar a noite, depois da academia, na hora costumeira, ao subir correndo por um passeio irregular, evitando pisar em buracos, acabei torcendo o tornozelo. Na hora doeu muito. Não tive como evitar um uivo de dor. Uma imprecaução logo saiu de minha boca. O que me fez passar vergonha ao ver que pessoas que nada tinham com meu mau jeito perto de onde estava.
Felizmente foi apenas uma leve torção. Descareci de imobilizar a parte afetada. Mesmo assim procurei um colega de farda. O qual me recomendou cuidado, nessa frase de alerta: “Paulo, você não tem idade para correr tanto. Acautele-se”.
Mesmo assim continuei a correr mais ainda. Corro da vida, antes que a morte me alcance. Corro da incultura. Da falta de educação. Dos maus modos. Dos falsos amigos. Dos encômios a mim dirigidos, pura falsidade de quem nada mais faz do que elogiar quem não tem qualidade. Como certos políticos hábeis na prosa insossa. Prometendo, nos palanques que felizmente não existem mais, coisas e loisas que nunca mais farão. Deixando o pobre eleitor de pires na mão.
Corro das podriqueiras deixadas nas ruas nas manhãs bem cedo. Quanto lixo derramado. Quantos cães vadios cavoucando sacos pretos. Quando os pobres animais, tanto fiéis que são, deveriam ser abrigados em locais onde pudessem ter um tratamento digno. Perambulando a esmo pelas ruas por certo não terão.
Caminho com a convicção, esperançoso que sou, que um dia as coisas vão melhorar. As pessoas serão dotadas de maior senso de cidadania. Elas não olharão apenas para o calcanhar. E sim para o bem estar de outrem. Seus próximos, seus iguais.
Doer em mim talvez esteja ligado a uma palavra que tanto me faz sofrer. Maldita sensibilidade explícita. Sofro, sinto dor, por uma palavra mal dita. Por um cumprimento por mim feito e não retribuído do outro lado. Sofro por sentir demais. Sofro por sofrer mais que os outros.
Condoo-me dos desabrigados dormindo ao relento. Noutro dia, mais ou menos um mês atrás, ao passar perto da Santa Casa, aqui pertinho do meu consultório, ao ver uma mocinha acordando, depois de passar a noite lendo as estrelas, a ela dirigi a palavra. Perguntei-lhe o que estava precisando. Ela me disse que estava na minha cidade a coisa de uma semana apenas. Elazinha era de Santos Dumont. E que estava amando nossa cidade. Aqui se sentia a vontade. Mesmo dormindo nas ruas. Na hora tentei oferecer a ela um banho. Na mesma Santa Casa. Oferecimento meu não aceito pela enfermeira responsável pelo turno da noite. Ela tinha razão. Era um precedente perigoso para os sem tetos. Hospital não é albergue. Toda cidade deve ter um. Como não pude atender ao desejo de asseio da Rakel dei-lhe o que tinha no bolso – vinte reais. E a mesma mocinha desamparada passou a ser a heroína do meu novo romance, de nome Rakel.
Por falar em lançar livros a cada ano, com esse Por quem os sinos não dobram completo dezesseis, sábado passado ele foi levado à baila.
Como me preparei para receber amigos! Leitores, simpatizantes, pessoas que têm o costume salutar de ler.
Com a cumplicidade de minha querida esposa fizemos uma recepção com o maior apuro no clube do condomínio onde moramos. Ao evento compareceram menos que a undécima parte do previsto. Menos ainda.
O estresse da espera. De saber quantos leitores compareceriam. De ali ficar minutos em vão. De ter de retardar a cerimônia pensando que mais amigos nos dariam o prazer de aparecer. De repente, não mais que num repente. E nada.
Depois de tudo acabado, era um sábado, chovera de véspera, uma chuva que logo passou, que trabalhão deu para desmontar tudo previamente arrumado. Desmontar as caixas de som. Levar as toalhas previamente alugadas. Ter o cuidado de não quebrar os copos. Eles todos não eram de minha propriedade. Encaixar os livros nos caixotes de papelão. Contabilizar o prejuízo.
Enfim, festa terminada, livros nas caixas, tudo terminou contrariando as expectativas. Não sei ainda as cifras do desalento. Não pela soma de dinheiro investida. E sim pela falta de apoio a um artista.
Hoje cedo, ao sair de casa a hora de sempre, ao olhar, debaixo da escada o monte de livros a serem vendidos, naquela hora não torci o calcanhar. Como no começo do texto narrei.
Mas como doeu, uma dor diferente, ao ver tantos livros novinhos sem terem sido passados adiante. Doeu mais que a dor de um infarto pungente. Mais que quando um espinho fere a palma da mão fina. Muito mais que quando alguém nos julga sem nos conhecer, realmente.
Como dói viver num país onde tantas livrarias fecham as portas. Onde tantas bibliotecas ficam ao léu. Onde leitores cada vez mais escasseiam. Onde a língua portuguesa, última flor do Lácio inculta e bela é tão maltratada. Onde um ex-presidente alardeia a incultura. Onde os professora são tanto mal pagos.
Como doeu, dentro de mim, ver tantos livros sem donos. Tanta dor me doeu tanto. Que nem sei dizer quanto.