Cada uma com seu significado. Seu sentido. Seu recado.
Aliás, este recado que quero dar pode ser lido, ou melhor, entendido, por todos aqueles que se sentirem ofendidos ou não.
Inépcia é a petição considerada não apta a produzir efeitos jurídicos, por ser considerada confusa, contraditória e absurda. Incapacidade diz respeito a falta de, por absoluta incompetência, de levar a bom termo esta ou aqueloutra obra. Preguiça salta à vista. É só fechar os olhos, depois de um lauto almoço, dar uma sonequinha leve, e ter de voltar ao trabalho, já atrasado, logo depois. Irresponsabilidade quer dizer que uma pessoa, por exemplo um prefeito, sob juramento, prometer concluir uma ponte, obra de urgência urgentíssima, que serve de elo de ligação entre a população rural de um município, por onde escoa a produção leiteira, e o lacticínio, que paga tão pouco por um litro de leite, mas é a única chance de renda da gente estoica e valente da roça.
Todas estas palavras, escritas num momento de ira raivosa, são bem um retrato eloquente da falta de responsabilidade e sensibilidade de certos mandatários, ditos alcaides, de uma cidade qualquer.
Hoje tive de dar um pulinho de caminhoneta a minha rocinha Ijaciense. Era antes das dez da manhã.
Chovera a baldes escorreitos durante a madrugada inteira. Do lado de fora da minha janela podia-se escutar o silvo agudo dos pingos grossos da chuva. O asfalto velho parecia, aos meus olhos madrugadores, novo, brilhoso, e escorregadio.
Deixei minha pratinha valente (nome dado a minha caminhonetinha usada), sempre estacionada à porta da minha casa, parada num beco sem saída, bem defronte a meu consultório. De quando em sempre a bateria me alerta que o tal veículo deve rodar mais.
Sabendo que teria problemas naquela subidinha aguda, entre a porteira nova feita pelo moço bom que me aluga a roça da casamarelazul fui fazendo figa para não atolar numa curva sinuosa por onde desce o caminhão leiteiro.
Ao ali chegar minhas previsões se concretizaram. Atolei as quatro rodas da minha Estrada da marca Fiat num monte de moafa, ali deixado pelos encarregados da manutenção desta e doutras estradinhas vicinais. Sem que ao menos tivessem o cuidado de esparramar o montão.
Quantas e quantas vezes implorei, supliquei, ao secretário de transportes de Ijaci que, por favor, depositasse cascalho amarelo, ali pertinho, em Macaia, tem da melhor qualidade.
E ele, sempre cordial, me pareceu bem solícito, prometia, não cumpria, alegando mal estado das máquinas da prefeitura. Ora o caminhão estava com os pneus furados. Ou a patrol com a lâmina carecendo ser afiada. Ou outra desculpinha esfarrapadinha qualquer.
O fato é que, na semana que se perdeu de vista, enfim o tal secretário acabou cumprindo sua promessa. Deixou um caminhão inteiro da tal moafa, de péssima qualidade, na tal estradinha vital para escoar a produção leiteira do arrendador valente da minha rocinha prejuizenta.
Era antes das onze horas quando Roberto me socorreu novamente. Fui andando, atolando aqui, escorregando acolá, com barro moafa até os cotovelos, até minha casa nova que nunca termina. Eu sim, de tantos gastos vou acabar me acabando.
Naquela curta estradinha, feita e refeita por mim, sem a ajuda da prefeitura, fui olhando os eucaliptinhos desfolhados brotarem de novo. Que chuva boa caiu de tempos pra cá!
As vacas solteiras do amigo Roberto pastavam na hoje aberta horta de verduras. Pasmem! Acreditem se quiserem e puderem. Uma das vacas, pastejando pertinho de um canteiro de abobrinhas, juro que de vaca magra virou abóbora madura e enorme. Só não a colhi por não caber na caminhoneta atolada.
De volta do Solar do Paulo da Rosa, este vai ser o nome dado a casa nova, só consegui desagarrar a caminhoneta prateada, agora amarronzada de barro cinza, graças ao amigo Roberto. Fui guinchado de marcha-a-ré aos trancos e solavancos.
Uma vez lá em cima do morro topetudo, olhando atrás, depois de agradecer e muito ao salvador da pátria de nome Roberto, foi que, graças às promessas vãs, juro que um dia faço o trabalho, cuido da estrada, vital para a produção leiteira, foi que voltei os pensamentos aos alcaides bons de prosa, e ruins de obra.
Tudo isso, passado por mim, por outros, de maior valor, tem no título o real dizer.
Inépcia, incapacidade, preguiça, irresponsabilidade.
Com a carapuça vestida, doa a quem doer.