Retrato de um país desdentado e sem rumo

Zé Miguel, competente e analfabeto tratorista, trabalhador de mãos caludas de corpicho fino como cabelo de milho, nunca teve tempo ou dinheiro para procurar um dentista.

Por este motivo o seu mil e um se transformou em banguelice de boa safra. Nenhum dos dentes de nascido, todos cariados, foram se despedindo daquela boca faminta, indo um hoje, amanhã o segundo, o terceiro não foi poupado da queda. Em menos de um mês a boca exibia aquela gengiva rosada. E por baixo dela nada a declarar. A não ser o vazio da banguelice. Cavidade própria a receber mil implantes. Ou uma dentadura novinha.

Pena que Zé Miguel não se deu com ela. Na hora da janta, ou na dobra do dia, quando ia almoçar, antes das dez da manhã, aconselhado por um colega idem desdentado, que usou Corega com sucesso, ao levar a colher a boca, não sabia comer com garfo e faca, a comida era engolida sem mastigação. E entalava na goela. Sendo regurgitada no exato momento. Provocando ânsia de vômito e mal estar.

Zé Miguel, percebendo na pele dura e tostada pelo sol a crise por que o país passava, a agricultura e pecuária leiteira ia de mal a pior, ao levantar junto às galinhas, chegando à sede da fazenda deparou-se com o bilhete vermelho.  Para ele ser desempregado era novidade. Pois ali, naquele sertão enorme, vivia desde a tenrice dos seus doze anos. E se considerava da família do patrão. Embora não soubesse a opinião deles mesmos.

Ao receber a indenização trabalhista, que foi uma soma polpuda as suas lembranças, nunca teve tanto dinheiro na algibeira rota, foi com ela procurar emprego em outra vizinhança.

Sem estudos, mal concluiu o primeiro grau, sem diploma de técnico agrícola, era a lida da roça a única coisa que sabia fazer à perfeição.

Com a enxada na mão, com a enxó não fazia confusão com a madeira tombada da matinha perto, com a foice dava um show nas pragas que infestavam a pastaria recém-formada em capim colonião.

Era mestre em tirar leite branquinho, mesmo a vaca melhor da boiada ser pretinha da cor do anu infeliz retirado de um balde de piche por um descuido de voo incerto.

Mas, estoico e valente, o desemprego recente não lhe metia medo.  Se ali batia a crise, noutro espaço por certo estaria a roça de milho novo em plena safra, pronta a ensilar. E trabalho não lhe iria faltar.

E assim caminhou, pediu carona num carro de boi, andou léguas a pé, até dar com a cara e a cabeça coberta por um chapéu de abas largas noutra freguesia rural.

Ali tocou o sino, que fazia as vezes de campainha sem fio. Ou eletricidade.

Apareceu, minutos depois, um senhor, remelento e sonolento, com ares de poucos amigos.

Seu Juca, como era chamado o fazendeiro faz tudo, que não tinha empregados por pura desconfiança de ser roubado, não o viu com boas olheiras. Ignorou-lhe a presença, como se faz com um cão vadio e sem dono.

Zé Miguel, embora tivesse motivo de sobra, não se sentiu o último dos moicanos. E foi à luta, com modos e pianos.

Bateu em outra porta. Que quase caiu ao seu safanão fino. Recebeu a mesma resposta. Foi pior do que antes.

Quem o atendeu, a hora da janta, foi uma dona de bunda enorme. Uma bundona por melhor ser chamada. Que não apenas o mandou ao olho da rua como chamou o 190.

O pobre trabalhador rural só não amargou prisão por ser ficha limpa. Caso fosse envolvido nos escândalos dos propinodutos por certo estaria livrinho da silva. Apesar de não ser este seu sobrenome. Era chamado por inteiro José Miguel da Cunha Peixoto. Peixoto por parte de pai e Cunha por culpa de não sei quem.

Já cabisbaixo, desanimado, pela primeira vez assim se sentiu, na vida inteira, ainda assim foi adiante.

Desta vez foi ter à cidade. Em busca de ares novos.

Uma vez apeado lá, numa cidade de porte mediano, acabou dormindo debaixo da ponte. E como tomou chuva grossa durante a noite indormida!

Acordou com a borduna do guarda estourando-lhe no lombo magricela. Depois foi levado a delegacia para prestar depoimento sobre um roubo acontecido nas cercanias de onde dormiu. E, mesmo jurando, fazendo figa, cruzando os dedos, foi preso sem direito a fiança.

Passou, naquela cela escura, espaço destinado a quatro onde se espremiam oito, os piores dias de sua malsinada vida. Foi feito de mulher, sem nunca ter sido.

Um mês depois foi solto. Saiu da cadeia esconjurando a falta de sorte. E os homens que fazem as leis. Que privilegiam, em nosso malsinado país, que tem colarinho engomado e branquinho como ovo de galinha de granja que nunca tomou sol.

Foi ontem mesmo que o vi.

Caminhando trôpego pela cidade. Andar cambaleante. Como um bêbado faz.

Em sua boca faltavam todos os dentes. E nem dentadura foi capaz de encomendar ao dentista da clínica popular. Onde gastou toda a dinheirama que recebeu quando da demissão.

Momentos depois daquela visão onírica, em acordão com a triste realidade de nosso país, foi que pensei em deixar escrito isso.

“Retrato de um país desdentado e sem rumo”. Ponto final, sem vírgula e coisa e tal.

 

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