Nascido em berço humílimo, pobre, poder-se-ia dizer, Chiquinho tinha de vender a janta para comer arroz com uma colherzinha de feijão bichado no almoço.
O garoto, nascido sem pedir, de pai desconhecido, mãe de vida fácil, embora a vida de prostituta não fosse exatamente o que se poderia chamar de fácil, aos menos de cinco anos acabou deixando o casebre, numa favela carioca, para ir viver nas ruas.
Ali conheceu de tudo que não prestava. Afanava as bolsas dando bandeira nas dobras dos braços das madames que apenas olhavam o celular. Experimentou drogas ilícitas aos menos de quatro. Foi quando aprendeu a fumar guimbas de cigarros deixadas na rua. Virou trombadinha aos seis completos. Foi preso numa prisão tida como modelo. Embora que modelo era este? Com aqueles muros altos, sem dar oportunidade de recuperação aos menores infratores, que eram deixados nas piores companhias possíveis e imaginárias, fazendo todo tipo de podriqueiras, sem banho ou alimentação decente, qual o futuro poder-se-ia prever para garotos, uma vez crescidos, como eles?
A unidade da FEBEM era a antessala do crime. Uma porta de entrada a coisas piores que um simples afano de galinha, ou um pedido de empréstimo, sem um ingênuo depois devolvo, de uma peça de roupa furtada da porta de loja lotada com mercadorias vindas do Paraguai.
Quando ainda vivia na favela carioca ali nasceu, sem ser plantado, do nada, um verde e produtivo pé de pitanga. Dos grandes.
Aos menos de dois anos a pequena árvore já se permitia colher frutinhas verdes que depois maduravam, e ficavam vermelhinhas e doces. Embora com sabor azedo doce.
Chiquinho adorava chupar pitanguinhas. As melhores, segundo sua opinião, eram as que desciam da arvorezinha de paraquedas e caíam ao chão. Era preciso catá-las logo. Antes que a podridão tomasse conta delas. E a anterior doçura azeda se transformasse em sabor de coisa podre.
Depois de virar menor infrator, pra daí se transformar em adulto bandido, com a folha corrida mais suja que pau de galinheiro, Chico nunca mais viu e provou aquelas pitanguinhas que tanto lhe faziam lamber os beiços famintos.
Aos menos de cinquenta já era criminoso irrecuperavelmente perigoso. A pena a ele lavrada foi tão longa quanto o caminho sinuoso que leva a terra ao céu. Como não podia pagar um bom advogado só lhe restou a defensoria pública. Descarece dizer que tal espera quase lhe custou a vida.
Da cadeia saiu já sênior. Achando que a vida do lado de fora do xilindró talvez lhe desse uma nova chance de se tornar melhor.
Sem formação, sem ser doutor, apenas cursou o primeiro degrau do primeiro grau, o já velho Seu Chico, a duras penas, conseguiu se aposentar. Apesar de não ter contribuído para o INSS em nenhum ponto de sua vidinha errática.
Aos sessenta anos exatos, ainda nas ruas, dormindo ao relento, mendigando as sobras, quem o visse não podia deixar de se apiedar do seu corpo descarnado, costelas vivas e frágeis, olheiras profundas sulcavam-lhe a face macilenta, uma calva luzidia era o que restava por sobre a cabeça oca.
Um dia o pobre infeliz Seu Chico foi levado, por uma alma caridosa e pura, ao mesmo lugar de onde saiu. A seu barraco quase desmoronado, em seu cortiço carioca.
Ali ainda se podia ver o tão querido pé de pitanga. Desta feita convertida numa enorme árvore verde forte, carregada de frutinhas por madurar.
Foi quando um sorriso nunca antes visto despontou na face tristonha do pobre Seu Francisco. Dava gosto ver a expressão de felicidade que em sua cara se mostrava.
Foi quando Seu Chico levou à boca uma daquelas frutinhas maduras. Umazinha não foi o bastante para saciar-lhe o desejo de provar nas papilas gastas da língua o sabor doce azedo da vida.
Em menos de meia hora acabaram todas as pitanguinhas da pitangueira. Só restou a árvore de pitanga. Talvez no ano seguinte mais frutas amadureçam. Talvez Seu Francisco não mais esteja entre nós para a elas saborear.
Foi em verdade o que aconteceu. Uma semana depois da visita do Seu Francisco a árvore de pitangas soube, por um jornal do dia, que ele, o pobre velho foi atropelado em plena calçada. E nem a enterro decente foi-lhe permitido.
Mais tarde, um mês depois, o pé de pitanga, sem motivo aparente, acabou morrendo.
Nunca mais soube notícias dos dois.