O que fazem com a gente os anos

Um dia destes, quando recebi, sem esperar, a visita do meu netinho até hoje único, de nome Theo, aqui mesmo, onde escrevo, e ele, espertinho, logo apontou o dedinho em direção ao aquário, onde nadam não sei quantos peixinhos, e a partir de então quis meter o bedelho em tudo em volta, foi custoso retê-lo em suas peraltices. Quando o tive no colo, depois de esforço que me causou enorme cansaço, fiz questão de perenizar o momento. Fiz mais um selfie de nós dois. Até na data presente foram incontáveis. Grande parte deles postados no Face.

A seguir, admirando a fotografia, comparando a nós dois, embora na tenrice da idade penso ter sido parecido a ele, como o tempo nos transfigura! Nos faz diferentes. Faz-nos ficar velhos. Atestado nas cãs que enxovalham-nos as têmporas. Na pele macilenta que nos recobre o corpo inteiro. Na fragilidade do folêgo que não acompanha o respirar ameno dos jovens. No passar as noites na cama sem que o sono nos acompanhe. No sexo não tanto firme quanto nos verdes anos. Era só olhar as perninhas da garota de minissaia e daí sobrevinha uma ejaculação fugaz. Como as flores do ipê despetaladas que já se foram.

Os anos que passam são nada condescendentes para com a gente.

Na idade jovem tudo caminha pensando no porvir. Uma vez adultos a gente para um pouco. Depois de passada a idade entre os trinta e os cinquenta, uma vez com a vida feita, sonhos desfeitos, a gente, pela vez primeira sonha com a juventude perdida. Aquela que os anos não trazem mais. Nem que queiramos. Então, na idade que agora me atropela, num galope feérico, nada mais nos resta senão esperar a morte. Que ela tarde um cadinho mais. Para que eu assista, embasbacado, meus netos, não sei ainda quantos os terei, receberão no palco da faculdade o diploma de graduação. Que seja na mesma profissão que abracei. Em outras da mesma forma. Mas, meu sonho maior é que um deles, mesmo sendo médico, advogado como meu pai, meu filho, se dedique, nem que sejam algumas horas por dia a escrever. Como o avô.

Este é mais um sonho meu.

O que a idade faz com a gente…

Não apenas nos torna velhos. Assim como nos faz diferentes. Como retratado no capítulo anterior.

Às vezes, ao me olhar no espelho, inevitável costume matinal, como me sinto mudado. Transmudado, talvez.

Hoje aconteceu isso comigo. A me ver no espelho, cabelos desalinhados, precisando corte, tive de passar água nos fios dos cabelos para que eles se deixassem pentear. Embora ralos se tenham tornado. Quanto aos dentes que ainda me restam, tenho, nestes dias que antecedem, visitado o dentista. E como tem dado trabalho restaurar o brancume, a saúde dos mastigadores. Um dia conseguirei mastigar melhor. E, a me ver no espelho, dentadura nova, dentes com menos imperfeições, o sorriso que da boca emerge talvez me faça sorrir melhor.

Durante a visita rápida que meu querido neto me fez, aqui mesmo, no consultório, percebi, de relance, o quanto os anos nos modificam. E como eles pesam na balança. Nos tornando idosos ficamos lentos.

Mas, assim como quando postei no Face a fotografia minha junto ao meu neto primeiro, comentei sobre ela a frase título do meu texto de hoje cedo: “o que os anos fazem com a gente”, logo veio um comentário alvissareiro – netos.

Foi quando calei minha pena, não com pena de mim mesmo. Ter netos, ser avô, é bom demais.

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