Elazinha foi resultado do cruzamento entre Pirunguinha e a doce Laika Rosa. Dois cães da raça Border Collie, tidos inteligentes e irrequietos, próprios para correrem desatinados atrás de vacas ou carneiros, de procedência anglo-saxônica, ou de países frios onde a neve cai. E fica tudo branquinho. Igualzinho ao algodão doce que fez açucarar a boquinha nervosa da criança.
Mas, por um acaso, não explicado ainda, enquanto os demais irmãos da Pepa eram peludinhos, graciosos, umas gracinhas, a pobrezinha parecer ter nascido em outra ninhada.
A cadelinha era sem pelagem. Nanica, feia e desengonçada. Era a menorzinha dentro seus irmãos. E como latia feroz a nossa pobre mal amada.
Os outros quatro tinham tratamento Vip. A eles todos era oferecida uma ração de marca especial. Conquanto a esquecida Pepa ficava a um canto, evitada até pelo seu dono. Um garotinho da roça, escurinho como jabuticaba madurinha, de riso franco ao ver os demais cãezinhos. Em contraste ruminante quando via a pobre Pepa, fora do enorme canzil construído especialmente para abrigar a ninhada linda. Avidamente esperada nos quatro cantos da bela casa beira lago.
Os filhotes espertos cresciam a olhos vestidos de amor. Ao revés da infeliz Pepa que não espichava, e como gania da danadinha!
Quem para ela olhasse logo tinha como conclusão que era filha de um Ricardão canino, que, uma vez percebendo o cio da cadela mãe dela se aproximou, às costas do Pirunguinha, e deixou a pobre com um filho estranho dentro de seu útero fértil, onde espermatozoides espertinhos já haviam fecundado outros óvulos, que caminhavam soltos pelas trompas de Falópio. O que em verdade aconteceu.
O fato não foi comprovado a sua identidade. Não foi feita uma acareação de genes. Não comum em cães, como é feita nos seres tidos humanos.
Aos dois meses completos toda a ninhada foi vacinada. Menos quem? Não precisa dizer que a pobre Pepa foi deixada de lado, desprotegida das enfermidades que ainda vitimam cães e outros bichos.
Por sorte Pepa não foi afetada por aquela virose madrasta, quase fatal na maior parte dos casos. De nome Pavovirose. E outras doenças mais passaram sem por a boca na pobre cadelinha nascida sem ser desejada.
Todos os quatro filhotes foram passados adiante. Quem mais valor teve foi um machinho cujo nome soube mais tarde: Del Rey. Ao todo eram três machos, e duas feminhas, uma delas era a pobre infeliz Pepinha, a enjeitada do berço.
Como os donos do casal de Border Collies não queriam nem podiam sustentar mais cães, naquela chácara beira lago, assim que os quatro foram vendidos, só restando o pai, a mãe, e a recém-nata Pepa, mal desmamada, qual lhe seria ao destino? A morte por afogamento, nas águas mornas da represa, ou o exílio não voluntário na estrada, solta do carro depois de uma viagem longa, na intenção de que ela não encontrasse o caminho de volta. Pois, principalmente os vira-latas têm um faro especial, e uma inteligência acima do normal. São os cães ideais para se afeiçoarem aos patrões e para vigiar lugares ermos como aquele.
Uma vez tive a constatação do que falo e escrevo.
Numa rocinha prejuizenta, que faz parte do meu passado e do meu presente, espero do meu futuro ainda mais, tive de dar fim a dois viralatinhas comedores de galinha. Seus nomes eram Toquinho e Tiquinho. Eles me acompanharam com suas oito perninhas serelepes numa carreira longa. Fomos, nós três, da roça nas cercanias de Ijaci a minha cidade amada. Cerca de mais de quinze quilômetros adiante. E os soltei depois do centro da cidade, onde pensei que ambos seriam felizes. Ledo engano. No sábado seguinte, ao retornar ao meu pedaço de chão, quem primeiro me recebeu, com latidos quentes de amizade genuína? Os dois cães vira-latas, que me prometeram, olhando-me no fundo dos olhos, que nunca mais comeriam galinhas. Acabei ficando com os dois como guardas confiáveis na minha rocinha amistosa. Não sei hoje onde eles latem e caçam galinhas. Talvez no céu dos canídeos, ou noutro lugar especial. Destinado a pessoas sem pedigree boas como eles dois.
Voltando a rejeitada Pepa, depois que a soltaram num lugar ermo, numa estrada há mais de cinquenta quilômetros de onde ela nasceu, sem pedir para vir ao mundo, nunca mais a pobre foi vista nos arrabaldes. Todos pensaram que ela foi atropelada, ou, felizmente, era bom demais para ser verdade, quiçá fosse adotada por alguma família que amava os cães.
Domingo passado, perto de hoje, sete de novembro, ao passar pela praça central da minha cidade, antes de cruzar a rua para ir ao clube pra onde sempre vou, fim das tardes, para me exercitar numa academia, pra mim se escreve saúde, com quem me deparei?
Era a Pepa, zanzando atônita pelas ruas da cidade, sem saber a aonde ir.
A pobrezinha estava faminta. Emagrecida, ar desconsolado, de sua boca aberta se viam espumas brancas saindo. Parecia raivosa.
Não tive como ajudá-la. Bem que tentei tirá-la das ruas. Corri atrás dela alguns quarteirões. Mas a Pepa correu mais do que minhas pernas podiam.
Meia hora adiante, fôlego sôfrego, arfante de cansaço, foi a última vez que vi a Pepa. Apareceu, do nada, um carro em alta velocidade, que colheu a desditosa cadelinha em cheio. Foi um atropelamento fatal. Nada sobrou no asfalto senão um monte raso de pelos e vísceras espalhadas pelo chão duro e negro.
No momento não tive reação. Fiquei ali, estático, olhos chorosos e com um aperto no coração.
Pepa nem enterro decente teve. Como não teve, em vida, uma vida digna.
Pepa é um exemplo do que acontece no dia após dia, cada vez mais, num mundo indigno, que trata os cães como bichos sem alma. Quando nós, tidos como racionais, agimos tal e qual bichos, sem coração. Sem alma. Sem piedade. Muito menos sentimentos maiores, que nosso corpanzil enseja, mais e mais.