Pena que foi apenas um sonho meu

“A vida é sopro. Existem dois segredos para manter a lucidez na minha idade. O primeiro é manter a memória em dia. Já o segundo eu não me lembro qual”.

Essa frase pedi por empréstimo ao grande arquiteto falecido depois dos cem anos – Oscar Niemayer. Lúcido, embora tenha dito que não se lembra bem quem era ele, capaz de desenhar na prancheta coisas lindas como o projeto de Brasília e outras obras grandiosas espalhadas pelo mundo inteiro.

Já eu pretendo manter minha lucidez aprendendo cada vez mais idiomas díspares do meu, exercitando meu cérebro sem parança, praticando corridas longas, muitos dizem que onde vou somente carros chegam, estando atendo aos noticiosos em que língua for, usando as redes sociais, fazendo amigos não apenas virtuais bem como os de verdade. Distribuindo bons dias a esmo, sendo simpático mesmo a estranhos por quem passo nas ruas, bem cedo, como no dia de hoje aconteceu.

Sonhar não é rotina em meu mundo de sono curto. Tenho pela noite verdadeira ojeriza. Acho um desperdício de tempo passar horas e horas de olhos fechados, mirando o quê? Se pudesse optar por trocar as noites pelos dias, que bom seria…

Mas, como existem os defensores da alegria, e da tristeza também, cientistas afirmam que dormir é preciso. Da mesma forma que amar é fundamental, para sermos felizes de verdade. Ser feliz, pra mim, rima com simplicidade. Como não complicar as coisas, lindas todas elas. Mesmo se não tanto assim.

Ontem, ao revés do que acontece comigo, tive um sonho pueril.

Sonhei que voltei aos verdes anos da minha juventude. Que ia ao colégio naquele uniforme verde e branco. Que pegava carona com algum pai de um amigo recente. Um coleguinha da escola. Onde curti os melhores anos de minha vida. Que, para meu gáudio, ainda são anos bons, melhores ainda.

Ontem tive um sonho. Quase não sonho, talvez seja por que quase não durmo.

Sonhei um sonho azul. Que, no dia de ontem, depois de estudar pra cacete, prestei um exame assaz concorrido. De nome ENEM.

Sonhei que os portões do enorme estádio de futebol estavam quase fechados. E como corri para não perder a primeira prova da tarde! Comigo correram milhares de pessoinhas lindas. Pelo país inteiro. Seriam mais de cinco longas horas de testes duríssimos. Alunos capazes, mais do que eu, para ali acorreram em busca de uma vaga em alguma universidade de bom conceito. Eram digladiadores valentes buscando seus lugares ao sol. Era uma primeira batalha feroz. Das muitas que se seguiriam.

No meu caso fui o derradeiro a chegar. Bufando, ansioso, lutando como todos por vencer minha primeira luta para um dia ser considerado vencedor.

Na primeira prova, sonhando, olhos acordados, fiz uma prova mediana. Era história a matéria. Não a minha preferida. A seguir caiu a geografia. Desta feita fui razoavelmente bem. Em matemática penso ter sido reprovado. Em física nem se comenta. Já em português fiz bonito. Bombei na redação. Tirei da gaveta das ideias um retumbante dez. Com louvor.

Agora, de olhos abertos, ainda sonhando, acordei e quase caí da cama. Onde passo poucas horas durante o dia. Que espero ser um dia feliz. Como foram os verdes anos da minha meninice peralta.

Sonhei com exatamente isso. Que me fez gritar a plenos alvéolos: “mãe, passei no ENEM”!

Pena que tudo não passou de um agradável sonho pueril.

 

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