O homem que catava saudade

Parece um contrassenso imaginar que alguém, movido por este sentimento não palpável, apenas somos capazes de senti-lo, no fundo do peito quando alguém se ausenta de perto da gente, passasse indeléveis instantes procurando nalgum lugar essa coisa que não se acha pelas ruas, pelas calçadas, mesmo depois de procurarmos dias seguidos. Debaldes as tentativas.

Foi isso mesmo que sucedeu a uma pessoinha antes quase desconhecida de mim. Não por quem com ele conviveu nos seus mais anos que a vida a ele desenhou.  Pelo que suas feições me passarinham ele deve ter menos anos que coleciono. Exatos sessenta e sete. Talvez a vida tenha judiado demais com seu corpo alquebrado. E ele fuma. Como equivocadamente fazia seu único irmão do mesmo sexo.

Quantas e quantas vezes, ao passar por ele, o irmão falecido de pouco, na porta de sua vivenda, ou bem perto de ali, alertava-o dos malefícios do cigarro. Muitas destas vezes passava correndo veloz. E ele, professor de geografia, hoje jubilado, dizia que estava pondo um ponto final no seu vício. Inimigo de longa data. Antes fumava um maço inteiro por dia. Já hoje o hábito nefasto foi reduzido a bem menos. Tudo graças aos meus conselhos de amigo. Embora não fossemos amigos tanto.

O professor, amistoso e cordial, já bem temprano, fumava e tomava um cafezinho na padaria logo nas cercanias de sua morada. Onde morava com uma irmã, e seu único irmão. Varão.

Meses atrás, movido por um sentimento mistura de estupefação e tristeza soube da morte súbita do professor. Ele foi encontrado sem vida no íntimo do seu quarto. A causa mortis não me foi passada. Creio que se tratou de um infarto de suma gravidade. O fato é que ao seu sepultamento não pude comparecer.

Ainda hoje, quando por ali passo, e não vejo a figura amável do professor, bate-me uma saudade profunda no âmago. Dá-me vontade de apertar-lhe mão. E voltar a fazer a mesma recomendação não apenas de médico. Como de admirador confesso. E como gostaria de ser seu confessor…

Foi ontem, novembro em seu começo, que, ao subir pela porta de sua casa avistei seu derradeiro irmão do mesmo sexo, cabisbaixo.

Fiz menção de parar, o que não aconteceu. Tinha pressa. Não sei de que. De nada, talvez.

Ao ver seu irmão olhar em direção ao chão do passeio, a procurar alguma coisa que não identifiquei, foi que pensei em que título dar ao texto de agora a tarde. O relógio de parede mostra quinze minutos para as quatro depois do meio dia.

Que tal “catando saudade”?

Foi então que me abaixei, olhei firme em direção ao mesmo lugar que o irmão do professor olhava de cabeça baixa, e acabei eu mesmo catando saudades de tudo de bom que já passou.

 

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