Num final de tarde, ao subir a rua de volta do trabalho, passei por uma cigana em sua tarefa habitual de ganhar alguns trocados lendo as mãos dos passantes.
Era uma moça inda jovem, com uma criança nos braços, pelo visto era seu filho.
Como percebi que nenhuma pessoa parava e se deixava ver nas linhas da mão seu destino, acabei, por mera curiosidade, parando um minutinho. Não tinha pressa. Era ainda cedo. Pelo meu aple watch os minutos preenchiam exatas meia hora. E a hora assinalada naquele mostrador igualzinho a um celular dos mais modernos era cinco da tarde. Hora marcada no novo horário de verão que começara inda nas barbas do mês corrente.
Tinha tempo de sobra para perder tempo com a tal cigana loura com uma filha nos braços finos.
Apenas exibia uma moedinha de um real no bolso de uma calça escura. Foi o que a ela poderia dar. Promessa aceita, com ares de muxoxo.
Em menos de dez segundos ela, com cara de não muita simpatia, afirmou: “olha, meu acabado senhor. Pelo visto você é um desocupado. Anda como notícia ruim. Bem pior. As linhas da sua mão afirmam que se trata de um aposentado. Nada mais faz do que andar pra cima e para baixo, como um cão vadio. Ah!, antes que o deixe partir, em segundos você vai dar um encontrão com a mulher da sua vida. Linda, curvilínea, com uma bunda de dar inveja a qualquer tanajura, olhos negros como a noite sem estrelas, que vai lhe dar um beijo tão doce quando um naco de rapadura mole”.
Ao virar o corpo, para continuar a subida, fui de cara, acompanhada do corpo inteiro, ao encontro que quase me fez beijar o chão duro do passeio esburacado, de uma morena mais obesa que uma baleia em falta de dieta. Que não apenas me deu um safanão como me mandou aquele lugar. Que desmerece aqui gravar para onde foi”.
Desde então passei a não acreditar em previsões. Se vai chover não consulto a meteorologia. Simplesmente olho pro céu, vejo a cor das nuvens, se cinzentas ou clarinhas como a alma dos anjos, e, para comprovar se em verdade vai chover ando sob as gotas cristalinas que veem do alto. E me deixo molhar.
Isso de ouvir, da bocarrota sempre aberta da comadre palradeira, que fulano de tal, cicrano ou beltrano, passou a ser boa pessoa logo depois do seu velório, já não me faz ficar insone. Durmo como anjinho quando falam mal de mim. E mal quando não.
Aliás, essa exaltada máxima de dizerem que quando ele morrer vai pro céu, imaginem que céu será este? Cheio de diabinhas cheias de pecado dançando ula ula, ou outra dancinha qualquer. Uma que abaixa até o chão, leva a mão na contramão, e por aí fica.
Que a gente só fica famoso uma vez mortinho da silva, acredito. Quando o da Silva vira outro sobrenome esnobe. Como por exemplo Orleans e Bragança. O coisa de menos valia.
Para comprovar o dito, maldito, ontem, sexta-feira, depois do feriado do dia de finados, quando, depois de esperar minha caminhoneta prateada ser polida depois de bem lavada, fui com ela a uma loja de acessórios para automóveis não tanto novos. Bem que minha valente pratinha merecia um bom trato. Ela tem aguentado um tranco danado no final de obra da minha casa na roça.
Uma vez ali, numa simpática loja de nome Aquarela, assim que as quatro calotas foram trocadas, no meio delas o emblema de marca Fiat foi instalado, ao verificar o preço do acerto, de repente o dono da loja entrou.
Estava com meu livro Mugido de Vaca e Cheiro de Curral na pasta preta. O preço das quatro calotas, mais o emblema vermelho da marca exata do meu carrinho velho que de vez em quando acaba a bateria, ficava em cinquenta e cinco reais.
Propus ao simpático seu Lito, desculpe-me se não é assim que escrevi na dedicatória, uma catira justa. Pelos acessórios novos daria meu livro. Permuta feita na orelha. Sem troco ou choro maior.
Neste exato momento, quando Seu Lito ficou com meu livro no balcão, ele assim disse: “doutor Paulo Rodarte, ele não mencionou o Expedito muito menos o Abreu. Não vou abrir uma só página deste livro seu. Vou mandar emoldurá-lo num quadro. Na seguinte intenção. Quando o senhor morrer, e ficar famoso, seu livro vai virar ouro puro. Imagine por quanto irei revendê-lo”?
Meu caro senhor Lito. Dono da Aquarela. Tomara sua previsão não se concretize tão cedo. Oxalá.