À espera

Quantas e quantas vezes cansei de esperar. A pessoa não veio. Fiquei vazio. Cansado de olhar o nada. Irrequieto, pois, como sou hiperativo um minuto de atraso mais parece a eternidade. Desde que me entendo por adulto chego antes do combinado. E não perdoo atrasos. A não ser que a razão seja a morte que chega a galope, antes da hora exata. Numa curva do caminho, numa encruzilhada malograda.

Quantas e quantas vezes esperei por ela. No rela do jardim. E ela não apareceu. Vestida no seu vestido de chita amarela, com uma fita gravada com o nome dela. E o nome era Rosa. Precisamente Rosemirian. Que depois acrescentou ao primo nome Correa Lasmar de Abreu.

Como médico, quando ainda operava todos os dias em quase três hospitais, um atraso na hora me fazia perder a paciência. E eu ia ao consultório, ainda não tinha o costume e o prazer de escrever, como agora me fascina. E ali ficava a olhar pela janela olhando a serra hoje esverdeada que agora se deixa ver. A espera de o telefone fixo tilintar. A enfermeira chefe do bloco cirúrgico do outro lado da linha me dizia: “doutor Paulo, chegou a sua vez de operar”. E eu ia veloz como o vento que hoje assopra, neste dia triste e cinzento, dia dos mortos, que perderam tanto tempo na fila em enormes filas de espera.

Até hoje sofro por querer que o mundo corra a minha maneira. Por isso me irrito. Uma aflição maldita me rói por dentro. Deixo-me descabelar os parcos cabelos que ainda resistem ao tempo. Sofro por ser dotado da maldita sensibilidade, própria de poetas que não sou.

Hoje, ao ir pela estrada antes poeirenta que leva à minha roça, no município de Ijaci, no mesmo lugar dormitava um cão preto. Era figura comum por aquelas bandas.

Era um vira-lata sarnento. Costelas a mostra, uma das duas orelhas pendidas pro lado, manchas peladas no lombo, do lado da estrada, quase uma lombada ensimesmada.

Já o havia visto antes. Um cadinho antes do desta vez. Quando o avistei de vezes anteriores pensei o pior. Que o pobre estava semi-morto. Agonizando até. Mas, de uma vez longe, fiz questão de parar o carro e cutuquei docemente com a ponta do pé direito o traseiro do cachorro negro. E ele latiu discretamente e se levantou. Junto a ele um focinho frio me tocou. Foi como se o velho cão me dissesse, entre uivos de dor: “por favor, meu senhor. Um dia fui um lindo filhote negrinho como quando um pássaro escuro cai num balde de piche. Mas, quando cresci, deixei de ter a beleza ingênua de um filhote, minhas fezes espicharam muito, meu querido dono me levou a passear num automóvel como o do senhor. Fui todo alegre pensando que ia dar um passeio. Ledo engano o meu. Cerca de vinte quilômetros além, no acostamento ermo, meu dono me soltou de repente. E eu ali fiquei. A amargar meu abandono”. “Desde aí não mais vi quem me criou como se fosse da família. Que saudades dos meus tempos de criança cão filhotinho. Se eu errei algum dia, não foi por culpa minha. Foi sim, unicamente por ter crescido”.

Hoje, bem cedo, vi, à beira da estrada o mesmo cão preto. Desta vez ele não me pareceu morto insepulto. Parei novamente a caminhoneta junto a ele. Por sorte levava um saco de ração ao meu cão da roça. Um lindo pastor alemão de nome Del Rey. Com que sofreguidão ele se atirou ao monte de ração de boa marca. E com a mesma felicidade o vi comer tudinho.

Hoje, dia de finados, dia triste, cinzento, com um começo ventoso e frio, fica quase impossível ficar alegre.

Antes de chegar a casa dei uma passadinha noutra de um amigo caríssimo. Ele comigo dividia as páginas de um jornal local. Estava preocupado com seu estado de saúde. Mais e mais precário.

Encontrei-o bastante desanimado. Quase não balbuciava uma só palavra. Nem watsapps mandava mais. E não criticava ou encomiava minhas crônicas. “Caso eu morresse antes de você, meu amigo Pedro Coimbra”, conforme nos deixou Chico Xavier, “acho que não vou estranhar o céu. Ser seu amigo já é um pedaço dele”.

Aquele cão, da negritude da noite, tantas vezes deitado na estrada rural perto de Ijaci, não foi apenas esta vez que me passou um ar de triste abandono. Ele deve estar infeliz. Como os que hoje choram seus mortos.

Esse cão preto sempre está a espera de alguma coisa que não fui capaz de saber qual seria. Talvez a espera de a morte vir em seu socorro. Em boa hora ela vai chegar.

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