Flores aos mortos

Dias atrás comprei dois vasos de crisântemos para ofertar a dois mortos em especial.

O primeiro vai ser depositado sobre o túmulo dos meus pais. O segundo por sobre o jazigo do pai da minha esposa amada. Tenho quase certeza que ambos, e os demais mortos, não saberão nunca da oferenda saudosa que amanhã ali deixarei.

Sei que as flores dos vasos logo estarão murchas, secas, sem cor. Como também sei que a cor da saudade é desprovida de cor ou sabor. Hoje mesmo, ao sair de casa, em hora temprana, molhei um cadinho a terra dos dois vasos. Que agora estão na cozinha, pertinho da janela, onde tomam os ares da manhã. Amanhã, finados, os dois vasos, espero que ainda com suas flores vivas, estarão a enfeitar o túmulo dos mortos.

Meu pai, minha querida mãe, o pai de minha esposa, decerto, onde estão, talvez não se importem com as flores do crisântemo que ali foram depositadas, sobre a lápide quente, tomara chova logo a seguir, para que o quentume do mármore não faça morrer as flores multicores em pouco tempo. Que pelo menos a beleza das flores depositadas amanhã se perpetuem um cadinho mais. Pena que não foi possível perenizar por mais tempo a presença dos meus pais perto de mim.

Os dois vasos de crisântemos já mostram sinais de sofrimento. As flores estão sendo desfolhadas dos pequenos galhos que as sustentam. As folhas, antes verdes, paulatinamente se mostram sem viço.

Eu, outros velhos, já há muito perdemos nosso viço. Sinais indeléveis de envelhecimento se agitam mansamente dentro de nossos eus.

Rugas passarinham-nos a face. Sulcos profundos se veem por toda parte. Flacidez da pele do rosto são sinais evidentes de envelhecimento.

Sorte minha, e de muitos outros, que as doenças ainda não se fazem presentes. Pelo menos enfermidades maiores. Um dorzinha de cabeça, uma sinusite persistente, cansaço que nos faz perder o fôlego, ereções débeis, são coisiquinhas leves. E não devem ser levadas a sério.

Amanhã, ainda não sei precisar a hora exata, levarei os dois vasos de crisântemos ao campo santo. O primeiro, que vai ser colocado sobre o tampo da cova dos meus pais, não irei desfolhá-lo. Mantê-lo-ei intacto. Pena que meu coração não se manteve intacto no dia que perdi meus pais.

Já o outro, o que vai ser destinado ao túmulo de mármore negro do meu sogro, acredito que as flores serão cortadas rentes junto ao caule. Para ser converterem em mil flores. E enfeitarem ainda mais o tampo de mármore escuro.

No dia dedicado aos mortos flores mil enfeirarão o cemitério. Quem sabe meu coração, e os demais das pessoas que ali deixaram não apenas corpos sem vida, bem como saudades revividas, também irão se enfeitar com o mesmo colorido lírico das flores?

Senão, que pelo menos as flores dos dois vasos de crisântemos que amanhã se deitarão no tampo cinzento do jazigo dos meus pais e do meu sogro durem um cadinho mais. E não venham a morrer tão cedo quanto um irmão que ali está, de nome Frederico Ozanam, Rodarte de Abreu.

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