O desinfeliz Seu Domingos, que não acordou na segunda

Novembro dizem ser azul. Muito embora as nuvens se mostrem cinzentas. Sinal de chuva em seu despertar. Ainda bem.

A mídia mostra e remostra a importância do exame de próstata. Depois de passados os quarenta e cinco, no caso de o paciente não apresentar sintomas urinários. Ou se for o caso de câncer de próstata em aparentados. Quando a incidência aumenta. Diz o ditado: quando o pai tem fimose o filho tem grandes chances de ter a mesma pelinha marota que recobre a cabeça do pênis. Expondo a mesmo a inúmeras doenças. Entre elas as tais DSTs, várias delas, cândida albicans incomodativa, e, para piorar o canto o câncer de pênis é mais prevalente entre os portadores de fimose irredutível. Quando não se consegue expor a glande a luz do dia.

Antes disse que novembro é da cor azul. Seria isso mesmo que a mídia enseja? Não.

Azul por um singelo motivo. Mês de se fazer o exame de próstata, na época certa.

Foi por este motivo exato que Seu Domingos me procurou um ano antes.

Ele veio a consulta junto comigo. No elevador. Com a sua augusta pessoa estava a postos sua patroa. Uma senhorinha miúda, clarinha como pé de algodão seco, que não apenas informava os seus queixumes como olhava a carteira recheada de notas graúdas.

Na época, por estar com o exame de PSA elevado, e toque suspeito, pela sua idade pouca ele ultrapassava mais de três e meio, indiquei que ele fizesse logo a biópsia transretal da próstata guiada pelo ultrassom. Foi quando a patroa fez cara feia. Relutou ao tal exame, dizendo ser por falta de dinheiro. Pelo SUS, ao tempo, não poderia fazer. Pois o aparelho do sistema único de saúde estava quebrado. Sem perspectivas de ser consertado.

Não mais vi os dois até domingo passado.

Foi quando passei pelo hospital. A portaria estava lotada. Por ser véspera do dia de finados. Uma multidão se postava defronte a porta de vidro. A espera de atendimento.

Entrei por breves minutos. Cerca de ano e meio depois da visita e da recusa do Seu Domingos de se submeter ao exame indicado.

Uma vez dentro do nosocômio, para ver um paciente, deparei-me com a chorosa patroa do Seu Domingos em prantos compulsivos.

O pobre havia falecido. Na portinha do dia de finados. Lá fora dois filhos do defunto clamavam a falta de sorte.

Que falta de sorte madrasta seria esta? Foi quando me lembrei de que novembro é azul. Não pela cor das nuvens que mugem no alto. E sim pela iniciativa saudável da Sociedade Brasileira de Urologia, de nos fazer lembrar do exame de próstata. Nunca seria demais recordar que o tal toque não dói nadinha de nada. E nem causa vício ou dependência. Nem enseja uma segunda ou terceira opinião.

Quando fechei os olhos do Seu Domingos, era uma segunda-feira, bem sabia que ele, por descaso de não ter feito a biópsia sabiamente indicada, que bem poderia levá-lo a cura, através de uma operação simpática, já imaginava que ele não emplacaria a segunda. Mesmo se chamando Seu Domingos.

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