Desde quando menino o nosso Tiãozinho, nascido no dia de finados, nunca pareceu morto. Ao revés. Ladino, ativo e espertinho, Tiãozinho sempre entrava na lista de honra na escola. As melhores notas eram dele. Quando o boletim ensejava em suas linhas uma nota abaixo de nove fazia cara feia o nosso amiguinho. No mês seguinte tudo se endireitava. E retornavam os dez. Nove e nove não lhe servia para nada.
Acontece, por uma fatalidade do destino, teve a família do menino de se mudar de cidade. Não mais poderiam viver em Lavras. Uma portentosa cidade do sudoeste das Minas Gerais. Cidade de porte médio. Com o tamanho certo para tornar todo mundo feliz. Até mesmo o saltitante Tiãozinho. O qual se sentia a vontade debaixo de qualquer viaduto, de qualquer ponte desde que ela não seja derrubada para desafogar o trânsito das cidades grandes.
O lugar eleito foi São Paulo. Um mundaréu de gente. Pessoas atropelando outras. Violência predominando não apenas nos cortiços. Como também no centro nervoso da megalópole.
A razão para a mudança foi exatamente esta. O pai de Tiãozinho menino não tinha como prover a família de apenas três bocas. Dele próprio, da mãe do pequeno Tião e do garoto inteligente. Que só tirava notas altas.
Mas, nos primeiros meses tudo que foi pensado serem flores acabou em espinhos pontudos.
Embora pertinaz e experimentado o pai do menino não conseguia colocação. Vivia com um jornal usado na dobra do ombro. Nele procurava e não achava um emprego que fosse. Para ele tanto fazia, como tanto não fez, qualquer coisa serviria. Tudo seria melhor do que continuar no banco da praça à-toa, inquirindo a um, perguntando a terceiros, o que fazer para não continuar no ócio. Bem sabia que o ócio é o começo do fim.
Meses se passaram. As chuvas chegaram. E as enchentes levavam os paulistanos ao descabelo. Filas e filas de autos varavam quarteirões. E no ônibus lotado, ou nos metros ensandecidos, nada a fazer senão levar esbarrões.
Foi numa destas viagens que o pai de Tiãozinho, chamado de Sebastião, acabou tendo sua carteira afanada. Com ela, nada tinha de dinheiro, apenas e tão somente os documentos tirados de pouco, foram aliviados do seu peso morto.
O estoico Seu Sebastião não se deu por vencido. Era homem valente e não convencido. A humildade era intrinsecamente ligada ao seu caráter irretocável que nenhuma mancha ainda lhe fora imposta.
Persistiu na busca. Até que finalmente logrou êxito.
Foi empregado numa fábrica de acessórios de automóveis. Que, num feio dia, foi à bancarrota. Todos os vinte funcionários foram demitidos e se viram no olho da rua. Com uma mão na frente e a outra do mesmo lado esquerdo.
Mais uma vez o pai de Tiãozinho se viu na fila do desemprego. A enfrentar lonjuras quilométricas a espera da agência da Caixa Econômica abrir as comportas. No momento exato em que ela abriu uma verdadeira enchente de desempregados afunilaram-se na porta rotatória. Que se parti em dez mil. Mais uma vez quem levou o pior? O desafortunado pai do Tiãozinho. O garoto nota dez. Que nunca faltava no quadro de honra da sua amada Lavras querida.
Retornar ao local de onde vieram? Como um filho pródigo? Um ex-filho que de volta a casa torna notou que o caldo entornou? Assim fizeram todos. Sem exceção.
Mas, no momento exato que tomavam o ônibus na rodoviária do Tietê, com a mala cheia de vento, por ali passou uma leva de trombadinhas. Que não apenas afanaram todos os seus pertences parcos, assim como deram uma tunda enorme na família sofredora. De toda a falta de sorte de atropelos.
Mesmo assim chegaram à Lavras. Com a mão cheia de embrulhos vazios.
Era véspera de Finados mortos. Uma quarta-feira quente, cinzenta e mal humorada.
O primeiro a saltar do ônibus foi o garoto Tiãozinho. Alegre, e ao mesmo tempo triste, por um motivo singelo. Na rodoviária do Tietê afanaram-lhe um mimo muito querido. Uma adorável bicicletinha de rodinhas brancas, que havia ganho de um Papai Noel que nunca existiu. A não ser em sua cabecinha juvenil.
Mesmo assim a família todinha desembarcou unida. Cabeça altiva. Pés no chão duro asfaltento.
Mais uma vez, no dia seguinte a volta, como o mundo da voltas, todos foram ao campo santo. Ali, no meio do cemitério cheio de flores, rezaram pela alma dos mortos. Foi neste exato momento, uma vez caída uma tempestade do alto, um raio riscou o céu, caindo justamente sabem onde? Por sobre a cabeça de todos eles. Nem foi preciso velório. Foram enterrados na hora. Num túmulo até hoje tido como milagreiro. Onde, em noites de lua cheia, escorre uma água tida como benta. Não sei se verdade ou não. O fato que desejo deixar no epílogo desta historinha besta é: “a felizcidade do desinfeliz Tiãozinho Finado não foi voltar a casa. E sim ver as flores fúnebres de pertinho. Em sua cova rasa”.