Dona Francisca não era um exemplo digno de cultura ou educação. Não a educação dita refinada. Aquela pessoa que deixa o lugar no ônibus lotado a outro passageiro de maior idade. Ou cumprimenta a outrem na rua com um bom dia amistoso. A educação que estava em falta com a dona Francisca em realidade era a que se acumula nos bancos escolares.
A pobre, pobre nos dois sentidos, não teve berço em nascimento. Pais pobres, a família todinha ganhava os míseros trocados cobrando lugar na fila para tirar fichas pelo SUS, já prontos, plena madrugada, quando uma loja de eletrodomésticos anunciava o tal Black Friday. E em outros motivos mais. Dizia-se, nos arrabaldes, que todos eles vendiam o café da manhã para comer o resto das sobras na mesa de restaurantes finos, onde ofereciam serviços como lavadores de louça, de olho nalgum casal que parecia endinheirado, que dali saía vestidos em lindas fatiotas, como se voltassem de um casamento elegantérrimo.
Aos vinte anos, ainda virginal, não no signo, e sim entre as pernas naquela gruta de fazer amor e urinar, descobriu-se vocacionada para o canto lírico.
Quem por ali passasse, e arriscasse ficar no observatório de uma escada caindo aos degraus, quase não suportava seus agudos. Era cada “iiiihhhhh” interminável. Falsetes fininhos, e graves de uma gravidade que assustava até o padre em seu sermão da missa do dia de finados.
Era o canto que amava a já experimentada Dona Francisca. Depois conhecida por Dona Francisca dos Agudos e Graves. Mas nada tinha de gravidade, ou de gravidez, na história matrimonial do casal. Bom lembrar que o nome do esposo da Dona Francisca era enorme. João Francisco Bretas Armandinho Salustiano Bezerra Mansa. E ele, quando aparecia, ano a ano, no médico urologista, que por acaso sou eu, a fim de fazer o exame de próstata, exigia que na receita constasse todos eles. Sem abreviatura ou coisa de menos valia. Até a presente data foram quase dez visitas. Todas pagas na hora. Sem os tais cheques a perder de vista ou voltarem dias depois por falta de fundo.
Era um casal amabilíssimo. Ontem ambos passaram por aqui. O exame de PSA do seu João, vou ficar apenas no prenome, estava bastante aumentado. Da vez anterior já estava desse mesmo jeito. Nunca seria demais recordar aos leitores que, uma vez que o PSA sobe um cadinho, em idade jovem passa dos 2.5, o toque retal deve ser feito de imediato. Para depois ser pedido o exame de Ultrassom trans retal mais biópsia com doze fragmentos ou mais. A chance que Seu João tinha de ser portador de um câncer de próstata era significativo. Mas ele relutava em se deixar puncionar a glândula prostática.
Durante a consulta, ontem a tarde, depois de convencer a ele da importância do tal exame, de explicar as consequências de a doença ser maligna e ele não se operar, dona Francisca pediu, mais uma vez uma mudinha de um bambuzinho trazido dos Estados Unidos da América numa vez em que ali estive. Uma linda crônica foi lida ao casal simpático. Foi quando a mesma Dona Francisca manifestou o apreço a uma boa leitura, dizendo-se amante dos livros, além do canto lírico que amava da mesma forma.
Uma vez na sala da secretária, nas despedidas, a consulta durou mais de uma hora, pedi a dona Francisca que nos desse uma palhinha do seu canto mavioso.
Ela, inibida, virou-se de costas e soltou a voz. Foi quando vi estilhaçarem-se dois jarros de cristal da Boêmia, além do radio a pilha que nunca era usado.
Depois da curta apresentação, de não suportar mais tamanha agressão aos meus tímpanos, ao elogiar a voz de tenor da amável Dona Francisca, ela, dizendo-se amante da literatura, fértil em cultura, disse, aos meus ouvidos moucos: “sabe, doutor. Nunca passei por um reservatório”.
Na hora lá fora choveu a encher baldes de água da chuva forte. Os reservatórios represas, antes vazios, agora devem estar cheios. Não de água. E sim da incultura da amável Dona Francisca. Já os conservatórios de música estes sim, devem estar transbordantes de notas dissonantes. Ao invés de do, de ré, dos mi, dos fa, dos sol, dos la, e, por fim dos si.
Inda ontem vi a mulher do reservatório transbordando de alegria deixar a sala do meu consultório. Ou seria a mulher do conservatório?