Nos últimos meses tenho inventado inúmeras histórias nas quais meninos fazem parte delas como protagonistas. Sempre tendo como tema a imaginação, a ficção toma parte dos meus escritos. Mas, embora metade seja fruto de devaneios, a outra tem uma pessoinha, geralmente jovem criança, como eu me sinto. Embora aos sessenta de sete anos, prestes a entrar idade nova. Em dezembro desvisto-me dos sessenta e sete para entrar um ano a mais. Não sei, ainda bem, quantos ainda me restam. Tomara muitos. Em plena saúde, foi o que pedi ao Papai do Céu ao passar pela porta da igreja na manhã de hoje, dez de novembro.
E quem seria o tal Joãozinho, motivo e razão da crônica de hoje?
Ele, menino espertinho, embora não tenha nascido na roça, era para lá que escapava nas férias da escola.
Antes ia para uma fazenda de um tio, irmão do seu saudoso pai. Tio Zito era seu nome.
Com que alegria o já jovenzinho ia a fazenda montado numa lambreta azul, sucesso com as moçoilas casadoiras dos dias de hoje. A muitas delas oferecia a garupa. E ela ia bem coladinha na sua cintura fina, respirando o vento, passando a ele toda a dureza dos seus seios do tamanho exato para pensar besteiras. Uma vez no ponto final da curta viagem, no máximo, na despedida, ela a ele oferecia, além de um muito obrigado um beijinho de leve, um ósculo infanto juvenil num dos lados da face, e ficava só nisso. Embora a intenção do jovem fosse ir além. O que, infelizmente, jamais acontecia. Pois, naqueles tempos idos de antão, ficar, transar, sexuar, só era concebido depois do casamento de papel passado.
Mesmo assim o menino maior ia todo gabola passar quase um mês ao lado das primas de Varginha. E contava vantagens no rabo do fogão a lenha, incentivado pelo tio Abreu, que o intimava a ir, na escuridão da noite, à cruz da Francelina, uma falecida anos antes, com fama de bruxa malvada. E ele ia, cruzando os dedos para não ver a mula sem cabeça, ou o assombração do Tião Preto, homem mau que andava pelos arrabaldes, pegando crianças indefesas. Dizem, nas cercanias, que o tal menino, já mocinho, usava aprisionar vagalumes numa caixinha de fósforo Fiat Lux, para que eles, com suas luzinhas piscantes, iluminassem para ele o caminho até a tal cruz mal falada.
Logo detrás da casa da fazenda, onde nasceram a maior parte dos de Abreu, havia vários pés de jabuticaba. Eram árvores enormes. Onde, no final do ano, as frutas de verdes desenxabidas, depois de uma chuvinha mouca, passaram a pretinhas. E faziam a alegria da criançada. Quantas delas caíram da jabuticabeira, tiveram parte dos seus corpichos fraturados. Ele, o tal menino jovem levado, teve tantos gessos assinados no seu antebraço, que nem se lembra de mais quantos foram.
Esse jovenzinho, apesar de ser contra a sua vontade, de menino artioso virou adulto responsável. Embora com uma pitadinha de peraltice tatuada em tinta guaxe na sua testa antes cheia de cabelos para depois se transformar em um enorme descalvado.
Mas, apesar de ser adulto, médico vocacionando, nunca deixou a criança desaparecer dos seus anos rodados.
Já nos dias de hoje, esse menino, tornado sênior, com o consultório ainda fértil em pacientes, já que na sala da frente trabalha um pediatra capaz, aos sessenta e sete anos com a sua secretária simpática marcou consulta, para a parte da tarde. E, pasmem! O profissional da medicina, competente e capaz, ao contrário do que se previa, não o mandou ao andar de baixo. Onde um psiquiatra experiente cobrava caro a consulta e não permitia retorno. E como é dura e desgastante a consulta com médico de dementes.
O velho profissional da saúde, aquele mesmo menino que ia a fazenda das Três Barras, onde morava o tio Zito, um dia voltou, depois de realizado como escritor, fecundo de ideias mirabolantes, a fim de subir na grande jabuticabeira, hoje carcomida pelos anos de abandono, para provar o sumo doce daquelas frutinhas, quando maduras, avidamente disputadas com os marimbondos e maritacas palradeiras.
Foi ontem que o fato se deu.
O menino, agora doutor e escritor, amante das próprias pernas andarilhas, ao subir no pé de jabuticaba, já madurinhas enegrecidas e de casca fina pela chuva mansa caída durante a noite linda que foi ontem, ao sentir que as frutas maduraram, de verdes ficaram escuras, uma vez no alto do pé de jabuticaba, prestes a inseri-las na boca, notou que de criança ingênua ficou um velho provecto gagá.
Com que pesar senti que os anos passarinham. Como eu, vocês, passarinharão. Como nós todos passaremos. Como é triste constatar que, um dia todos iremos amadurecer. Da mesma forma que amadurecem as jabuticabas. Elas, de verdes lindas, se tornam pretas e saborosas, caem ao chão, e servirão apenas de adubo a terra. Novo ciclo se dará no ano que virá. Ainda bem que é assim com a gente. Não digo pena. Pois, caso diga, estarei mentindo.
Esse garoto Joãozinho, citado antes, sou eu.