Morrer pra quê?

Quem sou eu pra fazer essa pergunta impertinente já que morrer infelizmente é inevitável e inquestionável.
Na vida que todos levamos o nascer vem em primeiro plano.
De bebezinhos chorões, eu não tirava minha chupeta da minha boca sempre aberta mostrando gengivas rosadas. Antes de despontar meu primeiro dentinho, dito de leite, que caía e logo outro aparecia. Meus primeiros passos eram trôpegos, inseguros. Ai se não fossem os olhos atentos de minha querida mãezinha. Era ela quem, quando dava de testa na quina da mesa. E o galo cantava inchado na minha. Minha saudosa mãe Rute logo me acudia. Ia depressa à geladeira de onde tirava do congelador umas pedras de gelo e esse frio amoroso fazia milagres desinchando esse ovo. Só que de dentro dele não saía nenhum pintainho.
A seguir de nossa fase de nenéns. Quem se atreve a dizer, seja uma visita chegada ou desconhecida. Ou apenas curiosa para ver o recém nascido. Querendo agradar aos pais diz de supetão com sua voz de trombone: “que criancinha mais linda”.
Nunca vi, num berçário de maternidade, mesmo querendo fazer graça aos pais da criança. Se por ventura de uma aventura disser criança quando nasce é linda minto. São feinhas como pardais depenados. Ou como anu preto, que, de susto fica branco quando vê estendido no varal um lençol branquinho e pensa ser fantasma.
Na vida que levamos deixamos a fase melhor de nossa vida. Pra mim é a mocidade. Já que inda nem pensávamos no que ir adiante. Nem mesmo a profissão a escolher. Pra que ganhar dinheiro se nosso pai nos dava mesada sempre ridícula em nosso pensar. Imersos que estávamos apenas em conquistar gatas. De vez em sempre uma delas mostrava as garrinhas afiadas. E na hora do vamos ver, do rala e rola, seja na cama onde ela dormia. Fosse no banco de trás de nosso carrinho. Ou escondidinhos num matel pois, não tínhamos dinheiro para pagar um motel. Que tempos bons me recordava. Quando íamos à matinê com nossa namorida dividimos a conta a pagar. Ou então eu comprava o saco de pipoca e a entrada à sessão da tarde ficava com minha quase sogra.
A fase adulta pra mim não tem aquele doce sabor de laranja da ilha na safra.
Quando a gente ajunta os panos então que meleca grudenta.
Muitos, quando se casam se arrependem. Meu amigo Pedro, tido Pedrão por seu tamanhão.
Numa tarde chuviscosa, quando nos demos de frente numa pracinha aqui pertinho. Ele, meio não, triste por inteiro. De farol baixo, cabisbaixo me queixou amaramente do ato insano, tresloucado que acabara de acontecer.
“Meu amigo, te considero como o melhor. Me casei, mudei de casa. Minha mulher faz tanto pouco caso de mim. Diz que sou um zero a esquerda. Um João Ninguém. Que besteira eu fiz. Deveria ter comprado um patinete. O que você acha”?
A ele não respondi naquela hora infeliz. E não disse a ele isso: “patinete não. Bicicleta sim”.
Depois de adultos entramos em que idade?
Na velhice, na decrepitude, idade provecta, senioridade, pra muitos melhor idade. Pra mim não.
O velho quase não pode sorrir. Se ri perde a dentadura e seu riso pouco dura.
O idoso não pode se sentir jovem ou menino. Se diz gracinhas à mocinhas bonitas corre o risco de ser processado e enjaulado por assédio ou importunação sexual. Ah! Se de fato ele fosse capaz de trepar. Nem num arbusto baixinho ele trepa. Menos ainda numa bunduda boazuda, melhor deixar pra outra encarnação.
Eis que chegamos a uma idade quando temos de comprar bilhete pra uma viagem sem volta e sem lugar pra mim conhecido.
Entramos à passadas lentas na estação rodoviária. No balcão onde está escrito pra onde desejamos ir.
Muitos idosos, mineiros principalmente, já que Minas não tem mar, que mardade! Com o bolso furado e vazio. Que meleca recebemos de aposentadoria. Um reles salário de fome dito mínimo. Se desejamos comprar passagem para Cabo Frio ou Guarapari o bilheteiro nos oferece os pêsames pensando estarmos dentro de um caixão não de um busão. E de verdade pura e dura acabamos dentro de um ataúde , no meu caso não cheio de flores e sim de livros meus.
Ontem passei um sábado maravilhoso sozinho e eu mesmo na minha casinha beira represa do Funil.
Tom Zé preparou cuidadosamente meu almoço. Já que nada sei fazer na cozinha a não ser comer na mesa da copa.
Um delicioso macarrão ao alho e muito óleo que requentei para não comer frio.
Eu mesmo fiz meu manjado cozumel.
Trouxe de companhia meu note book para continuar meu romance Ucrânia.
Bati pernas pelos arrabaldes bem acompanhados pelos meus seguranças Clo e Bia. A mamãe cadela recém parida de quatorze filhotinhos bem fofinhos. Um já foi doado falta doar mais um e os outros serão vendidos.
Na parte da tarde, depois dessas andanças. De ver meus amigos latidores sedentos de cansaço. Com suas lingonas de fora deitados ao meu lado.
Assentado confortavelmente num banco de cimento a olhar para o infinito daquele lindo lago feito do rio grande represado.
À mercê daquela beleza maiúscula. Cercado e não cerceado em minha liberdade de muito verde.
Sofismei sobre a morte.
Não temos como a ela evitar nem prever.
Um feio dia ela mostra a cara feia. E nada podemos fazer para impedir sua indesejada chegada.
Desejada se a gente não está bem de saúde.
Se ainda pudermos andar pelas próprias pernas e não ser preciso nos amuletarmos a vida inda sorri pra gente.
Se não, inermes num leito de um hospital. Sem ao menos podermos abrir os olhos. Tendo nosso esquálido corpo salpicado de sondas, cateteres, stomas deixando outros verem por dentro de nossas cavidades. Sem ao menos poder dizer, que seja a um enfermeiro ou outro profissional que cuida da gente: “por favor, me deixem partir!”
Que a morte venha, seja devagar ou apressadinha.
No meu caso prefiro e até deixo escrito. Que ela apareça num trinta e um de fevereiro num ano desconhecido. Que seja durante a noite enquanto estiver dormindo. Em saúde perfeita deixo dito escrito numa carta testamento com firma desconhecida no cartório dos aflitos.
Nesse sábado pretérito. Assentado naquele banco, do meu lado meus dois amigos Clo e Bia sonolentos cochilavam sem ver tanta beleza no entorno.
Acabei por pedir a sua majestade coroada rainha ou inda princesa sua alteza magnífica dona Morte.
“Morrer pra que? Nos meus mais de setenta e seis anos, mais quatro oitentarei. Se cheguei a essa idade tendo saúde a dar ou vender. Tendo minha enorme cabeça para suportar tantas idéias. Tantos escritos ainda deixarei à apreciação de vocês. Se aqui estando, desfrutando os frutos que aqui plantei. Tamanha beleza aqui junto comigo. Essa paz que prefiro. Nessa solidão que me diz não fale, apenas escute. Creio, até mesmo deposito minha crença em dias melhores que me restam a viver. Nos muitos livros que inda escreverei. Nessa minha caminhada diuturna usando o que tenho de melhor minhas duas pernas. Em segundo lugar. Já que em primeiro fica minha caixa pensante. Pra que morrer agora? Deixe-me sua majestade coroada, minha princesinha menina lindinha. Permita-me te chamar Mortinha. Já que tenho de receber sua chegada. Sempre sem hora marcada. Te suplico, se minha morte tiver de acontecer, que seja aqui mesmo. Deitado, recostado nesse banco duro de cimento. E que meus dois amigos orelhudos, fiéis e devotados a mim Clo e Bia. Se eles sentirem de fato saudades minhas confesso. Se for chegada a hora da minha viagem. Que seja como essa como agora. Nessa deliciosa viagem pelas teclas do meu computador”.

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