Devo-te muito

São coisas que não se pagam.
Favores que não se podem recusar.
Pessoas existem as quais, devedores que somos. Jamais poderemos a elas, que inda pra gente são tão caras. Com as quais dividimos incontáveis momentos. Entre beijos que foram esquecidos na passagem cruel dos anos. Em meio a carícias que foram deixadas pra depois. Que seja na coragem que ela tinha e inda tem em sobra. Na valentia que ela sempre mostrou sem destemor. No amor que ambos sentíamos, em menor idade, que infelizmente o tempo desaqueceu. Nem as dúvidas que eu tinha sobre sua fidelidade. Já que pensava que não me davas valor. Não me esqueci jamais daqueles nossos encontros no rela do jardim. Quando você andava no sentido dos ponteiros dos relógios e eu noutro. Numa ou noutra volta nossos olhares se cruzavam e não tinha tempo nem coragem de pedi-la em namoro.
Assim o tempo passou. Dos nossos encontros furtivos, no banco de trás do meu chevetinho azul marinho. Que penso agora ter virado sucata e repousa como lata velha num ferro velho qualquer. Das nossas idas ao cinema que se chamava Cine Brasil e hoje se transformou numa agência bancária nesse nosso país à bancarrota arrotando rouco com essa voz anasalada de nosso presidente. Como me dói, me faz mugir de saudades. Quando me lembro quando você, uma das minhas primeiras namoradas. Até de pouco foi minha esposa e companheira. Quando inda morava em Belo Horizonte, nossa capital estadual. E pra aqui, a nossa Lavras retornava ávido por te encontrar de novo. Encontrá-la toda linda na casa dos seus pais. Hoje eles não moram mais lá já que se transferiram de residência e habitam junto aos meus pais num lugar especial como todos os pais são.
Como vai me fazer falta a sua presença minha inda querida ex esposa. Não somente por saber que sua maior virtude é a seriedade no trato afável com os números. Coisas que abomino como tenho pelas letras em alta estima. No meu acordar madrugão costumeiro. Ao perguntar a ti se podia ligar a televisão para assistir ao noticiário das madrugadas. E tu, de cabeça coberta, rabugenta por ter te acordado e querias dormir um cadinho mais. Resmunga e, ainda ressonando baixinho diz qualquer coisa ininteligível aos meus ouvidos um tanto surdos.
Confesso que irei sentir muita falta mesmo quando discutíamos sobre algumas coisas sem nenhum valor. E tu, mulher guerreira, batalhadora, sobre ti dizem bravinha mesmo miudinha. Tu não levas desaforo pra nossa casa onde hoje moramos nesse confortável apartamento aqui pertinho. De onde irei me mudar pra outro mais distante. Mas certeza tenho que mesmo que me mude ficarei perto de tu, minha inda querida companheira.
Voltando um cadinho anos atrás. De volta ao nosso casamento. Tenho uma fotografia nossa aqui do meu lado esquerdo. Eu e tu num carrinho, penso ser no meu chevetinho azul clarinho como um céu não chuviscoso, quase da corzinha de um céu de brigadeiro. Tu sorrindo do meu lado, no banco de trás onde tantas vezes fizemos amor não somente puro sexo cheio de paixão. Meus olhos se voltam chorosos aos bons tempos que te pegava ao final da aula no colégio Estadual. Que ficava pertinho do campo santo onde agora moram meus pais. Dávamos uma escapadinha às estradas vicinais. E como era gostoso amar-mo-nos tresloucadamnte no banco de trás do meu carrinho. Creio ser esse mesmo chevetinho de tantas lembranças ternas que se eternizam até hoje.
Não me fogem às lembranças o quanto ti inda és importante pra mim. Quando morava ainda na Espanha, precisamente em Madrid. Ávido por ver conclusa minha difícil especialidade. A qual trago aqui dentro de mim e inda não me aposentei. Embora lhe tenha dito que me esperasse e tu me esperastes. Mesmo separados por quilômetros de mar alto, léguas de lonjura. Tu me mandavas balinhas de mel feitas caprichosamente por ti mesma. Eu me deliciava com aquelas guloseimas docinhas como seu hálito adocicado.
Nossa união não sobreviveu aos mais de cinquenta anos.
Agora ela se desfaz não por me ter desfeito de gostar de ti e respeitá-la muito.
Devo-te muitíssimo minha inda querida mulher. Quase da minha idade e outros dizem que tu se pareces a minha filha e digo zombeteiramente que tu és minha mãe.
Devo-te uma soma incalculavelmente generosa. De mais altura que o Everest e as maiores montanhas desse mundo.
Devo-te respeito, consideração, não comiseração. Pois tu não mereces pena e sim aplausos pela sua postura de admirável mãe de família. Como uma galinha choca eriça suas penas e não deixas predadores aproximarem de seus pintainhos netos. Nem de nossos dois filhos amados.
Devo-te tudo, minha distinta Rosa. Nascida botão de uma roseira na tua casa amada por seus pais.
Mesmo que me tenhas espetado com seus espinhos pontiagudos em vezes que não tenha tido culpa. Te admiro, te dou valor mesmo que tu não tenhas tempo de me dizer como fui e inda sou importante para ti.
Devo-te muito minha Rosemirian. Mesmo que tu não tenhas me dado ouvidos quando eu tentava ler um dos meus escritos. Dando voz a minha voz. Nas tentativas malogradas de me fazer ouvir e quem sabe dizeres que gostastes muito das minhas milhares de crônicas e dos meus romances que hoje irão somar a mais seis.
Sou-te eterno devedor minha querida esposa que infelizmente deixamos de ser marido e mulher.
Apesar dos apesares, me dói muito saber que tu não tinhas boas relações com meus pais. Que nunca assinastes Rodarte e sequer Abreu. E sempre tu és tida por Rosa Lasmar. Inconteste isso ainda te idolatro quase como meus incontáveis livros que tu tanto renegastes.
Devo-te muito minha esposa de tantos anos de união. Dissoluta agora nessa hora que me foi preciso encher de coragem para tomar essa difícil decisão.
Não tenho como te pagar em espécime. Que seja na mossa moeda, em dólares, euros ou mesmo em ouro.
Sou-te eterno devedor.
Como te pagarei? Já que nada me sobrou devido às altas despesas que tenho tido com nossa separação e mudança de ares.
Não tenhas dúvidas ou incertezas, minha respeitabilíssima companheira que ora não mais me acompanha e espero vai continuar sendo minha maior amiga. No tempo curto que inda nos resta.
Não vou pagar meu débito imenso em cifras nem em notas grandes como de duzentos reais.
Vou te pagar em uma moeda chamada amizade, respeito, enorme admiração por tudo que fizestes e creio piamente que inda farás por mim. Minha inda muito estimada Rosa Lasmar, Como preferes ser chamada.

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