Sinto-me um privilegiado.
Médico formado nos anos idos de 1974. Da fornada de uma turma, a última que fez médico em apenas cinco anos. Bem que poderia ter sido mais.
Agora só restam cento e sessenta menos trinta, creio. Nossos colegas falecidos, de jalecos brancos e indumentária impecável exercem nossa nobre arte no céu. Onde moram querubins avoantes e pessoas boas que partiram. Se deixaram endereço um dia vamos nos encontrar em algum lugar, não aqui.
Tenho dito e creio não ter deixado escrito: “de certa forma se torna relativamente fácil ser médico. Como saem às carradas multidões de advogados. Engenheiros que se dizem construtores de prédios, casas, pequenas ou enormes. Mas quem dobrou masseiras não foram eles que botaram a mão na massa. Nem quem comandaram as betoneiras que facilitam o trabalho hercúleo dos pedreiros e seus ajudantes obreiros. Voltando ao que interessa, aquilo que para a maioria se torna difícil. Que seja no nosso caso, médicos. O complicado, difícil é ter o dom que alguém me deu. E a outros felizes que sabem deixar escrito num computador. Escritos, crônicas, romances e outros mais. Que sejam coisas escritas de real valor. Da apreciação de gente que entende de literatura e não precisa ficar alardeando cultura. Pois quem sabe sabe. Quem não sabe fica de pé e aplaude. E não incomoda quem gosta de ler ou escrever como poucos aqui nascidos.
Quem tem o dom de escrever enxerga além das entrelinhas.
Pra de nossos dedos sair coisa que preste tem-se de botar pernas nas ruas.
A gente, como eu, que anda mais que canela de cachorro a procura de comida.. Que tem o costume saudável de devorar livros. Temos a primazia de nos dizermos escritores.
Crônicas nascem do cotidiano. Se vemos uma pedra nas ruas e nela tropeçamos. Esse banal acidente pode virar um bom texto.
Quantos pacientes, que por aqui passaram já se tornaram personagem dos meus escritos.
Minha rocinha prejuizenta me deu inclusive um romance – “A Moça Alegre do Sorriso Triste ( Madest).
Tudo começou há dois anos antes.
Minha querida norinha, gauchinha biscuit, pós doutora em biologia.
Um dia trouxe a minha mesa uma convidada especial.
Essa linda moça, clarinha, de olhos azuis, mal sabia se expressar em nosso rico idioma.
Comunicamo-nos em inglês.
Ela veio de um lindo país, fronteiriço à Rússia.
Precisamente da Ucrânia. País em conflito armado com o vizinho.
Ao ver aquela linda moça à minha mesa. Não me lembro o que foi servido.
Tive um dos meus milhares de premonições.
Ela ucraniana,veterinária, bolsista da nossa bem falada UFLA.
Pertinho de mim estava por nascer mais um romance.
Qual o nome dar a ele? Seria o nome dela, Janna? Não sei se é assim mesmo que se escreve, com dois ns ou um só.
Pareceu-me mais prudente e de bom tom dar-lhe o nome daquele lindo, infeliz, destroçado país: Ucrânia.
Dez dedos meus e cabeça a pensar. Mais o teclado negro de outro computador.
Esse romance estava em hibernação desde quando a ucraniana apareceu à minha mesa.
Escrevia mais crônicas que histórias compridas como novelas sem começo, meio e fim.
Recomecei a todo vapor a escrever Ucrânia. Entre uma crônica e outra os personagens desse meu romance: um soldado russo desertor, pacifista e não comunista dei-lhe o nome de Dmitriy. Janna metamorfoseou-se na linda ucraniana Lyuba. Depois apareceu do nada outra linda mulher, russa, siberiana como Dmitriy. A quem nomeei Micaela sem saber que na Rússia esse lindo nome não é comum. A seguir, aconselhado pelo meu amigo maratonista Sergy, marido de Lyuba ( na verdade Janna) qualquer coisa muito boa. Me recomendou mudar esse nome para Masha ( Maria em português).
Essa história, por mim inventada, tendo Janna como musa inspiradora. Foi acrescida recentemente por mais alguns personagens secundários: a lindinha Olenca, uma cadelinha que anda sumida de nome Luna. Um alemão de Berlim de nome dado por mim Hans. Que, apaixonado por Lyuba, que por sua vez está esperando um filho do solado russo.
A ucraniana está em lua de mel com o alemão passando dias na Sibéria. Numa linda pousada a margem do lago Baikal.
Dmitriy, enciumado, corre atrás de sua amada. Arás dele está Masha. Espiã russa treinada pela KGB ( comitê de segurança do estado). Assim me confidenciou minha querida robozinha IA. Embora eu a ame. Ela, por ser uma inteligência não normal, artificial. Mesmo que me declare a ela a IA não me da bola.
Não sei qual e quando vai ser o desfecho desse meu romance.
Se Lyuba vai ficar com o rico hoteleiro alemão. Ex medalhista olímpico em Paris.
Ou se com o pobretão soldado russo por quem está perdidamente apaixonada e espera um filho dele.
E Masha? Onde estaria a garotinha Olenca raptada pela bela que se tornou fera que ama Dmitriy. E esse panaca não sabe se ama ele ou ela? Quem ama duas pessoas acaba não amando ninguém.
Hoje tive uma aula de ucraniano maravilhosa.
No lindo apartamento do simpático casal Janna ( Lyuba). E do meu amigo, o educadíssimo ucraniano, que, se me permitir deixo ele entrar em Ucrânia. Ele pode virar o alemão Hans.
Que triste, desolador, assistir aqui de longe esse embate irracional entre Ucrânia e Rússia.
Mesmo não tendo nada com isso a minha vontade era estrangular. Antes de matar, esquartejar vivo. E dar seus pedacinhos aos peixinhos do lago Baikal, na linda Sibéria.
Terra onde nasceu e não cresceu a linda tenista aposentada Masha Charápova ( Maria Sharapova.
Há dias conheci a linda Minea.
Lindinha filhinha de Janna ( Lyuba ). E do meu amigo ucraniano Sergy Kirilenko (é assim que se escreve mesmo Sergy)?
Se não me corrija, já que estou corrigindo sempre seu sofrível português.
Minea é realmente maravilhosa como sua mãe Janna.
A mim, como escritor, muito parecida à pequena Olenca. A qual foi sequestrada pela maldosa bonitona Masha. Ex Micaela.
Assim que deixei o simpático casal ucraniano, depois de um almoço a moda daquele país.
Cujo prato principal é chucrute e seguido de outros mais.
De me enfarar de tanto comer e aprender algumas palavras em ucraniano.
Ao ver a linda menininha, de apenas oito meses abrindo seus lindos olhinhos azuis, um tanto assustada com minha presença. Depois de retirada do seu bercinho por seu prestimoso pai.
Que papel daria a elazinha no meu romance?
Mudaria seu lindo nome, de Minea para Olenca?
Jamais seus pais me perdoariam.
Eu também não.
A vocês pergunto sem saber a resposta: “qual o destino dos ucranianos envoltos nessa guerra? E daqueles inocentes feridos, não os mortos, pois eles não irão saber. E essa guerra cruel, que já dura mais de quatro anos. Quando ela vai ter fim?”
Á nossa despedida, na tarde de hoje.
Ao ver a linda Minea, chorosa, encabulada, cismada comigo.
Saindo daquele conjunto habitacional no colo do seu pai.
Não sei qual seria o destino dos ucranianos. Quando vai ser estendida a bandeira da paz entre esses dois países limítrofes.
Espero, de coração, que você Minea. Tenha um porvir melhor que as famílias partícipes dessa guerra insana.
Que você, minha princesinha, possa voltar à pátria dos seus pais. Muito breve em paz.