E se tivesse de que cor seria.
Se a gente tivesse muitos amigos eles todos teriam as mesmas cores?
Tenho pelas cores um grande apreço e admiração.
Amo o verde, essa cor que tem incontáveis matizes. Desde o verde esmaecido sofrido que tinge o pasto nesses tempos quentes, secos. Quando a gente anda por um roçado recém deixado limpo enchemo-nos de carrapatinhos miudinhos, aqueles incômodos micuins que grudam a nossa pele. Seja ela clarinha ou de uma cor escura negra como essa madrugada domingueira.
Tenho sonora e risonha admiração pela cor amarela. Que seja de um amarelo douro como o ouro que foi feito esse anel dourado que traz por cima uma esmeralda de cor vermelha. Por ele meu coração sangra e muge de saudade como aquela vaca que, ao sair do curral, após a ordenha, sai a patadas lentas ao ver seu bezerrinho mugindo tristezinho por ficar ali confinado sem poder mamar novamente no pasto de um verde sonolento esturricado pelo vento quente que faz da pastaria um prato cheio a um incêndio.
Apraz-me muito a cor marrom, da corzinha exatinha da minha camiseta que achei guardada na gaveta entre outras de várias cores.
Tenho ainda pela cor azul. Esse azul escuro, quase preto, que nessa madrugada de domingo se deixa ver no alto. Nesse céu tinto de um azul, não aquele dos olhos da lindinha Minea. Filhinha única do meu amigo ucraniano Sergiy. Que veio daquele país lindo e enlutado pela guerra insana que tem ceifado tantas vidas que se perderam sem saber a razão.
Pelo vermelho, tanto o vivo ou não tanto como o sangue que escorreu de uma ferida recém aberta e inda não cicatrizada. Em decorrência de um amor não resolvido e ainda sofro por não a ter escolhido como a única com quem teria a ventura de passarmos juntos até o final de nossas vidas.
Já o branco me faz lembrar das vestes que usava no começo da minha carreira profissional. Quando médicos se vestiam em branco. Inclusive nos sapatos de um brancume por vezes maculado pelo vermelho quando o sangue de seus pacientes caíam por sobre seus pés.
O branco inda me faz recordar a cor da leveza d´alma, da pureza dos anjinhos, tais como criancinhas que são levadas aos céus prematuramente. Deixando uma imensa nostalgia nos olhos dos seus pais.
Outras cores existem. Incontáveis outras.
O cinza, cor cinzenta, acinzenta-me a alma, faz-me parecer pequeno frente a grandeza de nosso mundo. Não tenho por essa cor em alta estima.
Pela cor roxa da mesma maneira não a tenho como a mais bonita dentre as irmãs ou aparentadas. Ela me faz lembrar aquele pano arroxeado que reveste os caixões na sua intimidade.
A cor lilás não se trata de uma cor que se destaca entre as demais. Ela talvez seja a predileta pelos estilistas, nobres modistas como minha esposa que tem pelas tesouras, máquinas de costurar, dedais, linhas, alfinetes, agulhas e outras iguarias que pessoas operosas, habilidosas têm na sua faina diária.
Tons sur tons de cores moram aos montes entre cores únicas.
Não vou citar todas para não me alongar demais nesse meu escrito de agora cedo.
De volta aos amigos, sobre os quais já deixei escrito distintas vezes.
Já escrevi que os tenho pouquíssimos.
Conto nos dedos todos e os amigos de verdade não preenchem esse total de dez.
Sobre amigos cães, fieis, devotados aos seus donos, submissos como me disse um amigo de verdade o Marcelo da dona Rose. Já que morreram o Pirunguinha, o serelepe Willie que viralatou pelas ruas dessa cidade e não sei se ele se juntou aos outros cães lá no céu. O peludinho Rebel, foi ele meu primeiro amigo cão, dos idos anos da minha infância passada naquela rua de tantas lembranças imorredouras a Costa Pereira que daqui se deixa ver a mão esquerda. O Del Rey, pastor alemão que lia com seus olhos claros as linhas da minha mão dizendo o quanto me apreciava e foi encontrado morto semi enterrado sob um monte de palha de cana numa fazenda vizinha a minha rocinha. E agora se insere entres as minhas melhores amizades outro cão de nome Clo. Ele, grandão, molengão, quando caminho na minha roça ele vai do meu lado. Parece um grudinho enorme, a passos lentos ele me segue como uma sombra sob o sol escaldante do meio dia. A ele se juntou há dias apenas uma cadela a quem dei o nome Bia. Que no dia nove passado me deu de presente quatorze figurinhas latidoras aos quais tenho como mais netinhos a serem, quem sabe amiguinhos dos meus três, assim que seus adoráveis filhotinhosabrirem seus olhinhos à luz desse nosso por vezes cruel mundo.
Amigos velhos, da minha idade, ou menos alguns anos, os tenho como os melhores. Seja de que cor forem. Se pretos ou brancos, marrons ou lilases, azuis da cor do céu que de repente tomou essa linda cor.
Amigos desfilam em números reduzidos nas minhas lembranças. Um deles começa com M, meio truculento, resmungão, palpiteiro e um tanto fora do peso.
Outros amigos de datas mais distantes, não tanto como aqueles da Costa Pereira, um deles tem um pequeno defeito por ser petista ferrenho adversário de nosso ex presidente hoje cumprindo, não sei a razão, prisão dentro da própria casa. Qualé Sebastião?
Outro amigão tem sabedoria do posto Ipiranga, que sabe tudo e prontamente nos responde exatamente onde fica aquilo e aqueloutro. Seu nome começa por J e tem o R no final.
Se tenho amigos entre meus colegas, tanto aqueles da nossa honrosa turma de medicina da UFMG de 1974. Não sei se somos de verdade amigos ou apenas colegas de faculdade. Eles sim podem me dar o veredicto.
Num dia de data sumida no calendário introduzi um novíssimo amigo, bem velha pessoa, da minha exata idade no rol dos meus amigos.
Aquele senhorzinho da cor de jabuticaba madurinha, um sorrisão tímido mostrando dentro de sua boquinha dentes alvíssimos.
Ainda trabalhando pesado a ajuntar mais uns cobrinhos a sua minguada aposentadoria.
Com aquela cabeleira branca encoberta por um boné escuro. De vez em quando pitando um paieiro apagado. Bom esvaziador de copos incontáveis de cerveja e num fica tonto como tantos tontos por aí.
Foi ele quem furou uma latrina para que os cocôs dos meus amigos ditos dantes não ficassem a céu aberto aumentando a fedentina do canil onde eles moravam.
Esse amigo pretinho como anu preto tentando se livrar e não conseguir ficar livre da sua cor negra pra mim uma das mais bonitas dentre todas. Que, ajudado por outro amigo cupincha dele não meu. O de nome esquisito Franjinha; Rogério na sua certidão de batismo. Ambos terminaram a roçação da minha pastaria mais sujismunda que poleiro de galinha com caganeira.
Esse amigo de tempos recentes, esse amigo velho e nova amizade, tem a cor de sua pele pretinha pura melanina escura.
Meu querido, permita-me chamá-lo amigo.
Até te conhecer tinha comigo que amigos de verdade não têm cor definida.
Podem ser pretinhos como você Augusto ou vô como era conhecido nos tempos idos quando trabalhava na UFLA em Macaia como você me contou vô Augusto.
O senhor, Seu Augusto vozinho amado por seus muitos netinhos me ensinou que amigos do peito. Aqueles amigos verdadeiros, fiéis e devotados como meus amigos cães.
A amizade que nos une não tem cores definidas.
Podem variar das cores do arco- íris, das flores amarelas dos ipês até as branquinhas que mais tarde se despetalão na relva seca dos jardins.