Na idade em que chegamos, nos meus setenta e seis e breve, quando dezembro chegar, inda bem que as eleições se foram e saberemos quem vai gerir o destino desse nosso país à deriva. Oxalá, no meu entendimento tacanho, não seja o mesmo que se agarra ao timão de nosso barco há bem anos e se mete a dizer-se homem do povo, que vomita linguagem mal escrita e mal falada de quem não tem a mínima instrução e se gaba de não ter passado seu traseiro roliço por nenhum banco de universidade como se isso fosse algo elogiável e exemplo digno a ser seguido por jovens que desejam se dar bem na vida futura já que nosso presente se mostra sombrio e sem alento de dias melhores.
Nas minhas andanças furibundas cidade adentro. Nesse meu ir e voltar de norte, sul, leste a boroeste, dando de comer aos meus olhos sempre vendo e revendo nossa realidade nua e bem cozida.
Vejo, percebo no meu caminhar, seja rápido ou lentamente como tartaruga sem pressa de ir ou voltar pelo mesmo caminho.
Anúncios de entrega-se o ponto, aluga-se ou se vende esse imóvel a quem pagar melhor.
Lojas dantes onde clientes entravam aos montes e hoje um monte de portas vazias.
Pessoas apressadas correm atrás de emprego e salários melhores. Pena que essas parcas oportunidades de trabalho correm inda mais apressadas dos possíveis pretendentes.
Estamos atravessando dias difíceis. Pais de família passam turbulências tais e quais aviões chacoalham asas pela tempestade nas alturas.
Nunca ricos faturam tanto em contraste à penúria de gente que mendiga migalhas como pombos aterrissados nos passeios comem farelos de pão ali jogados. Lixo que serve de comida a essas avezinhas que arrulham nos telhados reproduzindo-se como ratazanas gordas como as capivaras.
Nas ruas e avenidas, praças e jardins, enquanto ipês florescem mendigos, de mãos estendidas nos pedem moedinhas para tomar um cafezinho e, ao revés, com esses caraminguados que a nós não faz falta; a eles falta de tudo, quando nos agradecem de olhos embaciados pelas drogas, partem velozes a uma boca de fumo qualquer e adeus cafezinho magricela. Aquela droga nociva enche suas barrigas de fumaça quando deveriam comer qualquer coisa que fosse um leitinho quentinho junto a um pão de queijo a cara de nosso estado.
E daí? O que tem isso que deixei escrito com o título que pus mais em cima?
Esses parágrafos primeiros escrevi como um desabafo. Coisas que trazia entalada na garganta como um ossinho de frango que se recusou a descer e ficou no meio do caminho carecendo ser retirado a fórceps por um especialista em ouvido e garganta.
Como deixei escrito dantes, depois de certa idade não se deve deixar pra depois.
Tenho o ontem como fruta que deveria ter sido chupada e, se não foi, hoje azedou ou mesmo apodreceu.
O amanhã tem a incertitude do desconhecido desconexo.
Dizem até que o futuro, a uma entidade que não se deixa ver, mas creio que ELE existe, a ELE mesmo pertence e guarda não a sete chaves entre seus pertences.
Se quiseres fazer alguma coisa, que seja boa ou não, faça agora.
Se ocê tiver vontade de atirar a primeira pedra na vidraça do seu vizinho com quem não se da bem, faça-o agorinha mesmo antes que ele atire na sua inda inteira que pode ser estilhaçada feita em cacos.
Não deixa pra depois, não tente dormir em nuvens inda brancas, Pois, de repente, sem mais que num repente de repentista, essas nuvens podem acinzentar-se e cair uma aguaceira do céu e te molhar inteirinho, da sua calça novinha a cueca que deverias ter por baixo.
Dona Mariinha era nem tanto velhinha como aquela vetusta árvore que foi plantada naquela praça há bem mais de dois séculos.
Por ser virgem, não somente no signo como Inda mantinha intacto seu selo de castidade.
Manteve-se virginal até a idade que conta hoje, sessenta maus vividos anos.
Descuidou-se e não fez o exame preventivo, recomendado pelos especialistas de nome Mamografia.
Quando o fez já era tarde.
Um grande tumor de natureza maligna já havia dado filhotinhos grandões por todo seu corpo.
Em um ano apenas ela, que pesava mais de uma tonelada de abóboras passou a pesar menos de um quilo de jilós pequenininhos.
Era pele e osso apenas e tão somente a coitadinha. Tão miudinha que, para vê-la inteira carecia de um binóculo de grande aumento.
Em dois anos urubus avoavam sobre sua humilde casinha.
Um padre amigo e chegado a ela duas vezes a visitou dando-lhe extrema unção.
Um vizinho amigo ( da onça), marcou-lhe missa de sétimo dia embora ela ainda estivesse viva.
Encomendaram-lhe e lhe mandaram entregar em pessoa, na rua onde ela morava, uma coroa de flores pra aquela coroa não morta, ainda…
Ontem, na sauna daquele clube que frequento sempre ao cair das tardes.
Junto aquela turma boa de habitués , velhinhos e novinhos enroladinhos a toalhas e por baixo uma sunguinha miudinha, semi nus, fiz uma pesquisa com o seguinte teor: “se vocês quiserem fazer uma visita, rapidinha ou lentinha, a um moribundo. Iriam agora, hoje, nesse momento, a sua casa enquanto ele ou ela estiver vivo-a e respirando. Ou deixariam pra depois estarem presentes com suas caras de pau ao seu velório ou funeral”?
A maioria se calou e só bocejou sem emitir, mentir nem omitir opiniões.
A estrondosa minoria me mandou parar de perguntar pois, na quentura de um forno de sauna deveria ser lugar de relaxar e descansar melhor calar o bico.
Foi o que fiz e devia ter feito…
Melhor agora a nunca mais…