O Micuim dotô

Quem acha uma descortesia, ou até mesmo chamar alguém de vaca como sendo um grosseiro insulto ou ofensa, como queiram.
Não viveu na roça ou numa fazenda cuja renda vem daqueles bichos grandes, mansinhos até que lhe pisem no rabo. Ou quando um boi enorme furibundo corre atrás de você mais veloz que Usain Bolt em plena forma depois de vencer não sei quantas olimpíadas.
Se quer insultar algum desafeto pelo qual não tens nenhum afeto xinga ele de capivara. Pior ainda dizer a ele em altos brados: “seu micuim peçonhento! Vai grudar e fazer coçar o saco da sua vó!”
Isso se não conseguir gritar coisa pior…
Quem vive ou viveu naquele lugar magnífico, que quando se acorda com muita corda no relógio, bem cedinho. Madrugão como eu. Na intenção de tirar leite da vaquinha preta cujo leite que sai das tetas nasce bem branquinho. E com sua canequinha com açúcar no fundo, assim que quem tira leite espreme aquilo que na roça chamam de tetas ou mamilos no caso da vaca ser mulher. Aquele leitinho quentinho espumoso e rico em calorias. Assim que sai do mojo da vaca. Se parida de fresco esse leite se chama colostro e é um colosso pros bezerrinhos.
Um dos maiores pepinos ( não suporto esse legume), minha esposa ama resolver os pepinos que nos afligem tais como pagar boletos e contas não vencidas e mesmo assim ela os paga e não pede recibo. E eu fico no prejuízo, desajuizado que sou.
Pros valentes homens que labutam no cabo da enxada ou mesmo na foice ( mulher na roça não tem futuro nem presente).
Viver da renda de um retiro não retiro o que disse. É missão impossível varar um mês inteiro a espera que a cooperativa coopere com os cooperados e pague um preço decente por um litro de leite que sai do tanque de expansão frio e chega à morada do leite onde fazem queijo ou ensaquem o produto in natura ou desnaturado.
Já passei por essa triste experiência. Felizmente aprendi que leite só da lucro nunca…
Nesses mais de trintanos na atividade leiteira levava pra minha rocinha. Na caçamba da minha pratinha valente ( uma de marca Fiat Estrada Cabine Estendida). Ração a dar as vacas, sal mineral para acompanhar suas dietas, e de lá trazia causos pra contar, poeira ou barro quando a chuva bem vinda vinha do alto. E mais e mais prejuízos a amontoar na minha ridícula conta bancária sempre em vermelho vivo e eu quase morto.
Bem me lembro do esperto Geraldo da dona Nega tia do Tom Zé.
Era cada manta que ele me passava…
Não vou entrar em detalhes para que vocês não pensem que eu seja tão burro como um asno ululante.
Em verdade sou mais asno que burro escritor.
Hoje foi dia de ver como andava a roçação dos meus pastos.
Fiz-me acompanhar pelos dois responsáveis por esse serviço de macho.
Um deles, o mais veinho como eu, cujo nome na certidão de nascimento é Augusto não sei o que mais. O segundo uma pessoinha pra mim desconhecida que deveria ter conhecido antes.
Sujeito esperto, ladino, entendido de tudo um cadinho a mais.
Fomos apresentados pelo Tom Zé, meu amigo que serviu de parteira no parto da minha cadela Bia quando pariu seus quatorze filhotinhos e agora só restam dez.
Tive com eles no dia de hoje pela manhã.
Eram tão miudinhos que mais pareciam ratinhos recém natos.
Deixei-os mamando em sua dedicada mãe Bia enquanto meu amigão Clo me acompanhava fiel como sempre.
Fomos, na caminhada subindo morro, descendo ladeiras, varando sarandis espinhentos, por umas boas hora e meia sob um sol escaldante e barrigas roncando de fome perto da hora do almoço.
Nenhuminha sombrinha para nos esconder do sol a pino.
Augusto, o chefe da nossa quadrilha junto a minha esbelta pessoa. Seu ajudante que lhe dava ordens em outra rota. Esqueci-me de dizer seu nome que nem sei só sei que o alcunhei de Franjinha.
Augusto dava varadas com um arbusto na perna de sua calça preta como ele é. Por dentro um preto de alma branca.
Eu, com uma bermuda amarela de marca legítima famosa nos States. Ah! Me esqueci o nome mais uma vez. E nos pés um tênis que já foi novo e agora sucatou. E uma camiseta da cor do Augusto e Franjinha, esperto nos esperava no alto de um morro a salvo dos micuins.
Aflito, temeroso dos carrapatinhos negrinhos cosquentos, que passam por nossa pele e deixam saudade em forma de uma coceira e vergões vermelhos. Fui direto ao chuveiro no andar superior me banhar e tentar ver algum micuim instalado confortavelmente em minhas partes baixas e altaneiras. Por mais que investigasse nadica de nadinha de unzinho só.
Enfim na minha amada Lavras e de novo no banheiro e na ducha fria.
Mais um banho e nova pesquisa para encontrar mais um micuim.
Duas, três e mais horas a procurar esse tal carrapatinho de patinhas ariscas e mordedoras.
Quando já estava me enxugando na toalha felpuda, olhando-me por inteiro tim tim por tim tão. Ao olhar por baixo desse meu anel de dotô diplomado num curso superior de medicina. Nos idos anos de um mil novecentos e setenta e quatro.
Esse anel que não tiro e não deixo tirar nem no banho. Que meu saudoso pai me deu na formatura quando meus queridos colegas de faculdade nos diplomamos num ginásio lotado na capital das Gerais. De ouro purinho e uma esmeralda genuína de cor vermelha que me custou umas milhares de consultas.
Vocês nem imaginam quem estava debaixo, escondidinho, chupando meu sangue, enraizado na pele clarinha do meu dedo médio da mão direita?
E sabem o que aquele invasor da privacidade alheia me falou em berros e xingos?
“Não me tire daqui seu velho safado doutor metido a escritor. Ocê pensa que só o senhor pode ser dotô médico e inda por riba especialista num dedo enxerido metido a enfiar no fiofó dos mais veios? Sabe quem sou eu? Sou o dotô Micuim. Me diplomei na mesma escola que o senhor dotô fez medicina. O sinhô é especialista e eu generalista numa lista enorme de sabedoria. E sabe qual a minha titulação agora, nessa hora exata? Dotô com pós doutorado inconformado com louvor e muita raiva do senhor. Que espreme meus amiguinhos pretinhos antes que a gente vire um carrapatão de nome estrela, gordo, com muito sangue seu na barriga prestes a murchar se ocê nos espreme entre os dedos”.
É, inté no dia de hoje, agorinha mesmo, não conhecia esse dotô Micuim.

Deixe uma resposta