Como identificar e rotular uma grande amizade?
Se for uma amizade antiga, que dura anos até mesmo quase um século, seria essa que une duas pessoas velhas, a maior dentre todas? Essa amizade anciã, decrépita, de andar trôpego tropeçando em pedras no seu caminhar lento sem direção?
E se for essa amizade alguma coisa que une duas pessoas, que mesmo morando distantes ainda continuam a se lembrar do velho amigo? Ou amiga velha?
Amizades boas não têm preço que pague um abraço, um carinho, um gesto que retrate não apenas lembranças de nossa infância que se perderam na bruma cinzenta do tempo. Aquele tempinho bom em que a gente brincava de pique esconde nas ruas sempre lotados de pessoinhas de almas purinhas, criancinhas ingênuas que desconheciam maldades , isentas, por que não, de um pecadinho menor. Já que os cabeludinhos aprenderíamos anos depois.
E como pra mim era gostoso aquele convívio fraterno com meus amiguinhos amistosos, por poucas vez brigávamos sem motivo, ficávamos de mal, cuspíamos nas carinhas uns dos outros, jurávamos nunca mais olhar nas carinhas vermelhinhas dos Cosmes e Damiões, dessa dupla de gêmeos, mocinhos crianças da minha idade só resta o Cosme, o Damião se foi pra sempre.
Amigos de ontem, de hoje, agora e torço que para sempre, são como diamantes pedras brutas recém retiradas das bateias da saudade daquele corguinho onde o garimpeiro, a procura de esmeraldas acaba encontrando algo de maior valor chamado amizade.
Amigos não os tenho aos montes. Nem uma quantia enorme que faz a minha máquina de calcular tropeçar nos números e vacile em me mostrar no seu mostrador uma soma enorme incalculável.
Verdadeiros amigos não se esquivam quando deles mais precisamos em certos momentos difíceis que eles, amigos de verdade, não se omitem em nos ajudar e procuram tornar fácil o que dantes era dificultoso.
No meu caso, e como faço questão de ter bons amigos. Busco-os no clarume das madrugadas, não somente em noites enluaradas, no frio e no calor dos seus abraços, a eles me achego, aproximo-me, e se eles forem ariscos e fugidios, mesmo assim os tenho como amigos.
Não tenho muitas boas amizades. Esses com quem posso contar sempre e continuamente.
Amigos das redes sociais são chamados amigos, tanto do Face como em outras redes sociais. Não aquelas que a gente balança nas tardes dolentes das varandas numa rocinha qualquer como a minha de onde não me separo jamais.
Amigos de watsups seriam amigos de verdade ou apenas correspondentes; não em cartas como antigamente e sim em linguagem moderna como a usada em internet?
Amigos verdadeiros tento conservá-los em valas profundas, em cofres fortes, tranco-os em cadeados e deixo as chaves onde só eu sei onde elas se encontram,
E esse bom e quase sem defeitos amigo, se sabem de alguém perfeito me digam e deixem seu nome escrito onde possa ler a cada dia.
Nossa amizade não vem de ontem e espero que se perpetue ad aeternum.
Ela teve começo, não aqui nessa cidade, que nem é a nossa já que tenho Lavras não como berço onde nasci. E sim como minha mãe adotiva, pois tenho as mães como as que cuidam não as que parem.
Eu descobri as luzes do mundo em Boa Esperança.
Esse meu amigo vem de uma cidade vizinha, de terra vermelha e grande produtora de um bom café. Conhecida aqui e acolá por Nepomuceno ou Nepré.
Fomos apresentados anos se vão.
A minha rocinha, e a fazenda onde ele trabalhava, mãos caludas e tez morena descoberta por um boné, eram apartadas por uma cerca feita não sei por quem se por ele ou outros que ali moraram.
Fomos, minha esposa e eu, padrinhos de sua união com a mesma dona Lúcia sua mulher, esposa, companheira nas horas boas e piores.
Creio ter assistido, ou estado presente na torcida que todos seus quatro filhotes, hoje gente da prateleira de cima. Pais de família exemplares, dois solteiros ainda, já que todos eles não negaram a raça boa do meu amigo Betão, Roberto pra quem não tem muita intimidade com ele.
Esse meu amigo de longa data. Não tanto como meus amigos da Costa Pereira muitos deles já moram noutra vizinhança, junto aos anjos alados no céu.
Era ele quem me acudia quando uma vaca minha sedenta de sede ou de um capim melhor, metia a cara focinhuda num brejo cheinho ou não de taboas. E de lá ele, meu amigo, vizinho de cerca, caboclo forçudo e valente, desatolava a vaca não a deixando afundar no tal brejo.
Meu amigo fiel, esse Betão mourejador, tirador de leite na munheca, pai exemplar, honesto, era quem me ajudava quando um dos meus retireiros faltava. E era ele quem me acudia, me dava esterco de graça. E graças ao seu tratorzinho herdado do seu ex patrão passava a lâmina de sua máquina na minha estrada que sempre me dava problemas tanto na poeira que tinha de engolir quanto a barreira que fazia os pneus da minha caminhonetinha deslizar e atolar.
Esse amigo agora distante algumas léguas da minha rocinha. Por sorte minha passou a morar naquela casa amarelazul, cenário do meu romance Madest. Roberto, esposa, filhos, foram os protagonistas dessa minha história metade realidade e a outra ficção.
Lembro-me, saudades vem e vão, quando esse meu amigo velho, não tanto quanto meus setenta e seis. Que tanto me ensinou na lida com retiro, e não aprendi suas sábias lições. Por azar o meu, sorte dele e seus amados filhos e três netinhos . Betão passou a morar noutro lugar.
Ele, ninguém melhor que esse meu amigo de verdade, Roberto da dona Lúcia, Betão como nos arrabaldes é conhecido e respeitado por sua lisura e fino trato. Merece esse descanso.
Ele já lutou muito. Já jogou veneno nos cafezais. Já deu murro em ponta de faca afiada. Já deu canelada na sua vida. Já viu vaca leiteira encher e dar coice no balde cheio de leite quente, encher seu tanque de expansão até vê-lo frio próprio a ser levado ao laticínio.
Roberto, Betão paizão, marido dedicado a sua esposa Lúcia. Pai do meu outro amigo Binho, do Carlinhos, creio ser a escora dessa linda família. Também da menina seriema Lucimara seu nome de batismo, cercada de mimos dos seus dois geminhos. E da não menos linda mãe do lindinho Cauã, por quem nutro outra grande amizade.
Chega de deixar escrito sobre velhas e boas amizades.
As melhores não são as novas e recentes.
São as de ontem, de outrora, como tenho pela sua Roberto, entre todas elas, se não a melhor…