O partido do Zé Ruella

Podem me perguntar: “Ruella com dois ls por quê”?
E mais uma duvidazinha mais: “não seria o certo Zé Arruela? O nome daquela pequena peça, geralmente de metal, em forma de disco com um furo no meio, que é colocada junto a um parafuso ou porca (não a que grunhe faminta e come pra chuchu, que às vésperas de final de ano matam a porquinha coitadina, um tanto obesa, sapecam ela inteira numa fogueira que arde e faz dodói no dedinho enxerido do molequinho atrevido que mete seu dedinho nas brasas fumegantes e solta um gritinho que é ouvido em toda vizinhança).
Não me contradigam.
Eu sou o escritor e vocês meus leitores.
Se intitulei minha crônica de hoje cedinho, “o partido do Zé Ruella” desse jeito desajeitado não me corrijam nem rasurem meu escrito.
Escrevo aquilo que me da na telha. Como meu telhado tem pouquíssimas telhas (fios de cabelos), não me dêem de presente uma peruca. Prefiro que me paguem, um bom feitor de cabelos implantados, que eu fique feliz da vida com novos pelos a cobrir minha calva brilhosa.
Estamos vendo, pelas ruas, praças e avenidas, sobretudo aqueles que andam como eu, cartazes, bandeirolas, e até mesmo outdoors mostrando, não sei o custo disso tudo. Fotografias coloridas de candidatos a não sei o que. São tantos que tenho ainda dúvidas em quem votar sem me revoltar ( não vou dizer que voto naquele que comprar mais livros meus, isso não se deve dizer nem deixar escrito).
Se algum dia tomei partido de alguma coisa bem sei que me arrependi amaramente depois desse infausto incidente acidental.
Era inda menino.
Uma linda criancinha alourada, dono de um sorrisinho encabulado quando via uma menininha cruzar suas lindas perninhas e, não sei se num descuido descuidado, ela mostrava no meio das suas perninhas moreninhas se estava ou não usando calcinha, se branca ou não não saberia dizer. Pois seu paizão me chamou as falas me deixando com minha carinha vermelhinha de vergonha por ter olhado aquilo proibido a menores de vinte e um anos e eu só tinha sete aninhos.
Naquela briga de rua não deveria ter-me metido.
Eram dois rapagões fortões na disputa por uma boazuda bunduda das vizinhanças.
De um lado um lutador de caratê mau caráter. Vestido caracterizado numa fantasia de caveira negra.
No outro lado do corner, nem era ringue de box, uma baita musculoso bombado homenzarrão mais parecido a um Pit Bull não vacinado contra raiva com raiva de todo mundo até dele mesmo.
A rinha, não de galos, começou.
O Pit Bull atacou primeiro. Levou e levitou um soco na fuça que o deixou a nocaute na lona.
O primeiro contendor revidou e lhe deu um chute no saco tão forte que ele gemeu, se contorceu, foi ao hospital de imediato e sabem quem teve de atender o gemedor, sem que eu entendesse o que se passava. Se ele tinha vindo de uma tourada ou de uma jaula de um leão faminto.
Na delegacia, pra onde fomos levados, o delegado, com o seu, não meu olhar de deboche.
Olhou descaradamente em minha cara e me disse entre dentes cariados e sujos como pau de galinheiro onde as galinhas, como piriri, mais cagavam que botavam ovos.
“O senhor, seu doutor escrevinhador, vai tomar partido de qual lado, desse de nariz quebrado ou doutro de pescoço pelado?”
Foi aquela a única e última vez que tive de tomar partido numa disputa disputada como puta enganada pela freguesia que a ela prometeu fazer um pix de mil reais e na realidade foi apenas de cinco irreais reais.
Já o Zé Ruella, personagem do meu escrito de hoje cedo, era um pobre João sem ninguém a abonar sua abundância de mau caratismo.
Aquele cara não devem e nem podem dizer que sou eu.
Nem minha querida mãezinha, que me conhece muito bem, melhor que ocês, aquela santinha, purinha de alma branquinha sem mácula.
A qual, quando ia lançar um dos meus livros, no lançamento quase não se via viva ou alma morta. Sabem o que ela fazia e não se arrependia depois? Comprava todos os livros meus encalhados. Sacava seu talão de cheques, apenas assinava e me deixava preencher com a soma que eu quisesse.
Agora, nessa hora quase madrugada ainda, que a senhora minha mãe foi embora, em má hora, quem vai comprar meus tantos livros?
Avizinhavam-se as eleições. Outubro fazia soar sua buzina “bipbip”, seguidas vezes repetidas.
Como sempre Zé, vamos dar um tempo às arruelas, estava mais de mil vezes na pior das piores fases de sua vida meio bandida e outra vez bandida por inteiro.
Catava latinhas, tirava guimbas de cigarro das latrinas e pitava sem soltar fumaça pelas ventas.
Era um zero à esquerda e um adiante em frente aos enfrentamentos de sua vida desregrada.
Acordava mais cedinho para ficar mais tempo à toinha jogando prosa ruim nos ouvidos entupidos de quem não quer ouvir.
Ele já havia ficado enjaulado na cadeia por não pagar em dia a sua pensão alimentícia que seus trinta filhos mereciam sem nada receber.
Zé Ruella ficava na rua da amargura amargurado de tanta tristezatriste vida era a dele.
Se pobreza fosse defeito, com efeito Zé era um baú cheio dos tais defeitos.
Ora dormia ao relento outra hora era só fingimento lamentando-se da falta de serviço. Mas ele era avesso ao trabalho. Nem duro nem mole, tudo lhe fazia dizer que estava cansado de nada ter o que fazer e só queria descansar.
Até que, naquela manhã ensolarada, era uma sexta feira folgada, como ele só.
No seu atoismo costumeiro, andando a esmo pelas ruas sujas da cidade.
Vendo com seus próprios olhos tudo aquilo, naquele momento de muita precisão.
Quem sabe seria melhor pra mim me filiar a um partido político? Ou até mesmo me candidatar a uma coisa qualquer.
Que seja a deputado, senador, se a governador seria possível morar no palácio e não mais debaixo desse viaduto infecto contagioso.
À prefeito não seria possível já que as eleições à prefeitura não vai ser agora e noutro ano sim.
Zé, mais animadinho, sorrindo na sua banguelice desdentada, viu uma porta aberta e ela abriu seus olhos.
Entrou casa adentro. Nela tinha um quarto grandão e muita gente ajuntada em torno de um candidato a não sei o que.
Incontáveis fotografias do tal sujeito eram vistas nas paredes daquela casona que mais parecia uma zona.
Afinal Zé pensou ser o apito final de sua miséria.
Uma linda mocinha, vestida sumariamente numa mini saia que nada escondia e só mostrava sua falta de decoro.
Ao visitante daquela hora perguntou curiosa como um curió preso na gaiola que quer sair e ganhar a liberdade de poder cantar em outro lugar sem pagar aluguel.
“O senhor quer se filiar ao nosso partido? Se deseja assina essa lista e me mostra seus documentos. Em um segundo o senhor pode sair daqui como partícipe de nossa sigla partidária sem pagar um tostão furado. O senhor já tem um partido?”
Zé, que naquele momento esquisito perdeu todas as suas arruelas, alegre e satisfeito por afinal dar um jeito na sua vida, mais bandida que mocinho que nunca foi.
À mocinha lindinha respondeu soletrando as letras do tal partido que gostaria de ser filiado: “ PSDBTESENADAMAIS ME INTERESSA ANÃO SER GANHAR DINHEIRO FÁCIL ÀS CUSTAS DE VOCÊS”.
Eu também vou entrar nessa. Espero não ser mais uma roubada…

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