Aproveitando o ensejo

Muitas vezes a exposição excessiva pode nos causar constrangimento.
Com médico urologista me expunha bastante quando atendia num centro de saúde na área norte da minha cidade.
Tinha um nome pomposo aquele modesto postinho de saúde – Ambulatório médico de todas especialidades – AME, para encurtar meu veredicto.
Como sempre me desloco pelas minhas próprias e bem andadas perninhas que andam mais que notícia das piores. Em outra unidade de atendimento, na qual atendia clínica médica pelo sistema de saúde público (SUS), aquele mais antigo de minha amada Lavras, nomeado Posto da Chacrinha, ia batendo pernas, pobres dos meus pezinhos tão sacrificados, em menos de dez minutinhos já estava ali. Sendo cumprimentado por muitos pacientes, entre os quais deixei amigos, com esses dizeres bastante amistosos: “bom dia doutor. O senhor como sempre andando a pé né”?
E sempre retribuía à gentileza respondendo com a mesma fala cordial: “bom dia Seu Benedito. O senhor me parece muito bem, tem tomado os remedinhos que lhe receitei? E mal sabendo se Seu Benedito era o tal ou se seria Seu Antenor marido da dona Fulana de outro tal”
Naquele postinho simpático não me expunha mais que o necessário já que ali era médico não especialista em doenças dos rins, via de regra são dois, aparelho genital masculino, os tempos modernos ensejam malversações, especialista que trata as inadequações sexuais, e coisinhas mais.
Já naqueloutro nomeado AME, por ser mais distante da minha oficina de trabalho, onde me encontro agora e sempre bem cedinho. Tomava o busão aqui pertinho e ia sossegadamente até lá na zona norte de minha cidade.
Ali a prosa era outra. Tinha de me expor muito mais.
Uma leva pesada de pacientes ia a minha procura depois de agendar a consulta semanas ou meses dantes.
Meninos, menininhas acompanhados de seus progenitores ali apareciam do nada sem nada sentir de importante.
Ainda me lembro de um desses causos.
Um pai, meio estranho, cabeludo e barbudo com ares de poucos amigos, já demonstrando impaciência do lado de fora da minha salinha acanhada onde só cabia eu e mais um. Se adentrasse mais um eu teria de sair. Quanto me relatou o motivo de ter trazido seu filhote a consulta fiz-me de desentendido para não magoar a dupla de dois.
O pai exigiu que eu, como urologista experiente no assunto, em primeiro lugar, sem a presença de seu filho mais novinho. Escutasse atentamente o que ele, o pai, gostaria de dizer.
Soltando palavrões ditos em zonas de baixo meretrício ele assim se expressou: “doutor, meu filho tem o Piu-Piu pequeno. Ele se sente avexado e nem mija perto dos colegas. Isso está lhe causando constrangimento como um jumento que não da conta do recado. Vosmecê da um jeito nele. Faz uma operação pra alongar o dito cujo se não vou te denunciar à prefeitura”.
E saiu da minha salinha pisando duro e batendo a porta ferozmente como um cão raivoso mordendo o osso faminto.
Contei até mais de um milhão para continuar o atendimento. Do lado de fora esperavam impacientes outra centena de pacientes.
Entrou a seguir o filho do tal jumento.
Era um molecão de quase dois metros de altura fora a envergadura de mais metro e mucado.
Quando ele tirou pra fora da cueca seu Piu-Piu quase caí de costas.
Parecia uma daquelas varas usadas em varais de estender lençol branquinho ao sol do meio dia. Não deu tempo de medir aquela coisona pois, o pai insatisfeito entrou sala adentro exigindo um tratamento milagreiro que fizesse aquela coisa grandona crescer e espichar ainda mais.
Ainda bem melhor que me aposentei do serviço público e não ainda da medicina, por enquanto.
Como já deixei escrito ando mais que deveria.
As ruas e avenidas da minha cidade me conhecem mais que minha esposa.
Ontem, domingo, quando o relógio da igreja matriz cantou seis e cadinho já estava na rua batendo a sola desse tênis que estou usando.
Subi até o condomínio onde morei alguns anos. Quase não se via vivalma morta ou viva nas ruas.
A cancela do condomínio se abriu pra mim como se eu fosse um carro e não uma pessoinha que sou.
O simpático porteiro o alegre e cordial, meu amigo Ricardo, lá estava de sorriso aberto e junto a ele o ronda que me reconheceu de pronto com quem tive uma prosa amistosa naquela portaria.
Fui até o clube a fim de deixar colado um cartaz onde se via escrito o meu convite para o lançamento do meu novo livro O Canto das Cigarras.
Descendo a rua principal me apresentei a um passante como médico urologista e escritor não com a intenção de me expor mais ainda.
Mas ele, sabidinho e oportunista, ao saber quem eu era aproveitando o ensejo me fez uma consulta em plena rua.
“Doutor. Já que o senhor é urologista praticante e não aposentado, gostaria de saber uma coisinha que me importuna muito. Até já fiz uma consulta particular a um colega seu, o doutor fulano de tal. Meu Piu-Piu coça muito sempre. Seu colega de ofício me disse que tenho fimose e tenho de operar essa pelinha que recobre a cabeça do meu Piu-Piu. O que o senhor acha”?
Como estava com pressa de chegar a minha morada, a esse aproveitador do ensejo perguntador, sem pagar a consulta, simplesmente pedi que ele tirasse as calças, arriasse a cueca e expusesse seu Piu-Piu.
Será que ele o fez?
Aproveitando o ensejo digo que não.

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