A nossa relação, não poderia chamar de amizade já que o amor fala mais forte.
Naqueles idos anos de muitos janeiros que ficaram pra trás dela me aproximei.
Ela era apenas um pastinho sujo. Uma casinha tosca perdida no meio do mato.
Um curralzinho onde vacas quando ali entravam muitas delas ou atolavam os cascos de tanta lama ou mugiam de dor ao verem seus bezerrinhos famintos ainda não satisfeitos com aquele colostro que era bem pouco e não lhe saciavam a fome.
A nossa relação, eu médico recém saído do forno e bem temperado de sonhos de um dia me dar bem na profissão. E elazinha pobrinha mudando de mãos de um sitiante baixinho loquaz que se despediu delazinha com lágrimas descendo em cascata pelo canto dos olhos depois de percorrermos passo a passo aquele sarandi. Ele na frente eu por detrás admirando o entorno sem ainda entender o por que de tanto me apaixonar por aquela gleba de terras que me foi vendida por um preço nada conveniente para os tempos duros de antão.
E quanto mais andávamos, subindo ou descendo morros, olhando árvores centenárias pedindo socorro temerosas de um dia serem cortadas por um machado afiado. Mais e mais a admirava pois, sempre tive pelas rocinhas, desde meninotezinho artioso e pequenininho. Já que quando dezembro assinalava a chegada de mais um final de ano, lá ia eu à rocinha da Cachoeira de minhas saudosas tias avós Mariana e Leonor no município de Perdões terrinha boa de minha mãezinha.
A nossa relação de amizade não foi sempre boa como a tenho com meus escritos.
Ao aqui chegar médico especialista vindo das terras da Espanha, pensando erradamente que todo esculápio podia ser fazendeiro mesmo sem saber a razão de o leite ser branco nascido das tetas de uma vaca pretinha. Ela e eu quase perdemos a nossa amizade.
Foram mais de trintanos levando ração a dar as vacas e trazendo na caçamba sambada de minha caminhonetinha poeira, carrapatinhos miudinhos e muitas historinhas pra contar.
Quando mais dela me afastava mais queria voltar.
Bem me lembro, em nossa tormentosa amizade e cheinha de amor de mim pra ela, não sei se elazinha sentia o mesmo por mim. Do meu cão fiel o Paulo Rosa, aquele desajuizado Border Collie tinto em branco e do negrume de uma noite escura. Que precisava ser atado ao pé de uma cadeira que ficava à porta de entrada da casaamarelazul, cenário do meu romance A Moça Alegre do Sorriso Triste senão ele corria atrás da minha caminhonete em disparada pelas estradas até Ijaci ou até aqui na minha Lavras querida. Mugem dentro de mim saudades imensas das catiras e mantas que levava do meu vizinho Geraldo da Dona dele de nome Nega.
E dos negocinhos que fazia com outros vizinhos menos ladinos aos quais propunha a troca de livros meus por bezerros ali nascidos e bem criados. E nesses casos quem levava manta não era eu.
Quanto mais dela me afastava mais dizia que gostaria de viver por ali e não voltar pro lado de cá. Mas como médicos militam em hospitais e não em currais ordenhando as vacadas e tendo de correr dos bois quando enfezados correm atrás da gente e temos de pular cerca de arame farpado e rasgar nossos fundilhos e quase nos vermos pelados.
As nossas relações iam de mal a pior.
Foram mais de trintanos acumulando prejuízos e mais e mais desentendendo a razão de quando a égua passa a aceitar a monta do garanhão, como elazinha eguinha ainda virginal faz: ela pisca a sua vagina, aceita de bom agrado a corte que o cavalo inteiro faz e se deixa desvirginar.
Felizmente passei a minha rocinha prejuizenta a frente.
Pena que nem tudo que reluz tem a cor doirada e desbotada como a casaamarelazul se encontra agora.
Meu amigo arrendador de minha rocinha foi-se embora. Levou minhas vacas que passaram a ser dele. Levou com ele meu sonho de ser fazendeiro, pois sempre fui um pela metade. Metade de mim escreve e a outra metade ainda é médico especialista em Urologia.
Para que nossa relação de amizade e muita camaradagem não se desfaça para sempre nesse meu sertão veredas edifiquei minha casa beira represa do Funil.
Ali passo horas miúdas de outras graúdas olhando as pragas das capivaras nadando no lago. Meus dois amigões os canzarrões Clo e Robson ladrando tentando sair do seu confortável canil e andar na minha companhia amistosa.
Quando ali chego e tenho de sair parte minha fica por lá, naquele lugarzinho ermo mais parecido ao céu onde moram meus pais.
Faz dodói no meu peito ter de me despedir daquele espaço dantes prejuizento e agora motivo de saudades de tudo que passei dentro de ti minha amada rocinha.
Ao fechar as porteiras volto meu olhar de pura nostalgia daquele glorioso dia que trouxe meu paizinho a minha rocinha e o vi tentando pescar um peixinho naquele laguinho hoje devorado e engolido pelas taboas.
Meu coração se inquieta ao ter de voltar à cidade onde passei minha mocidade e infância naquela rua de tantas lembranças naquela casa que dantes podia ser vista de aqui e hoje só mora nas minhas doces recordações.
Quanto mais da minha rocinha me afasto mais desejo voltar a ela onde moram hoje meus dois cães amigos. Minha linda casa beira represa. Meus dois cavalos da mesma cor pampa. As lindas plantas motivos de orgulho e de redobrados cuidados de minha esposa Rosa cujo nome certo é Rosemirian.
Hoje, quase hora do almoço despedi-me dela. Não sei se ela chorou ao se despedir de mim.
Não sei o que ela sente ou pensa a minha partida.
Já eu digo e deixo escrito a você, meu antes maior orgulho quando chegava aos seus limites com minha caminhonetinha carregada de insumos a dar as vacas, vendo galinhas caipiras protegerem seus pintainhos debaixo de suas asas com medo de perdê-los para o esfomeado gavião. Tucanos bicudos glutões assaltarem ninhos de canarinhos e comerem seus ovinhos. E as estridentes maritacas grasnarem frenéticas subindo nos galhos mais altos das jabuticabeiras onde eu tentava subir e não conseguia.
São tantas infindáveis passagens que passeiam por minhas lembranças aí, minha amada rocinha. Que quando a deixo solitária parte de mim permanece aí. Bem mais que a metade de mim…