Tenho talvez uma duzentena deles nadando aqui pertinho no meu aquário de generosas dimensões.
E como eles, depois que renovei minhas espécimes de peixes aquarianos, se adaptaram muitíssimo bem a sua nova morada líquida que mais parece uma piscininha tipo aquela que pessoinhas minúsculas tomavam banho nas suas banheirinhas feitas de plástico bem duro e resistente. E depois daquele banho morno eram enxugados por suas zelosas mães e elas mesmas espalhavam um talquinho cheiroso nos nossos bumbuns gordinhos.
Não sei quais dos meus peixinhos, se aqueles serelepezinhos rosados, ou aqueloutros pretinhos chamados de tubarõezinhos em número de três, eles são os mais glutões, os sempre escondidos cascudinhos, aquelezinhos que vivem entre as pedras do fundo. E os demais tantos mais que são, não irei declinar seus nomes, pois temo ser tido uma pessoa que beira a demência ou insanidade já previamente a se manifestar de vez pra sempre.
O fato retrato que desejo tirar deles todos é simplesmente essa lição que meus peixinhos me dão.
Peixinhos que vivem nadando e fazendo borbulhas dentro de um aquário não têm de prosear nem aceitar desaforo de ninguém. Os meus me dão pouquíssimo ou quase nada de trabalho.
Não sei se dormem durante a noite pois, se fecham seus olhinhos, ou tiram um breve cochilo podem se afogar embora sejam ótimos nadadores.
Elezinhos quase não me pedem nada, pois não sabem falar nem jogar conversa fora do aquário onde moram. E se morrem e deixam de respirar pelas suas guelras não carece que chame a funerária nem a eles encomende um caixãozinho e nem os leve a um forno crematório para serem incinerados. Singelamente ou deixo aquele defuntinho boiando na superfície do meu aquário e em pouco tempo seus falsos amigos irão comê-los agonizante mordiscando seu corpinho até reduzi-los a uma coluna vertebral nos peixes nomeada de espinha dorsal.
Peixinhos, sejam aquarianos ou nadadores em outras águas quaisqueres, são os tipos de pessoinhas as quais gostaria de ser.
Nunca pensei ser tão difícil ser escritor.
A gente se desnuda aos olhos de quem nos lê.
Nas minhas crônicas me desenho como transparente e verdadeiro. Se invento um personagem em meus romances dizem, os pseudo entendidos, que ficciono demais.
Caso alguns dos meus escritos não agrade a maioria logo vem um comentário indecoroso falando mal da minha pessoinha que tem a obsessão e a compulsão de me desnudar por inteiro quando deixo minhas mal traçadas linhas postadas em alguma rede social.
Minha adorada e por mim bem amada filha mãe dos meus dois netinhos Theo e Dom, ontem deixou escrito sobre mim.
“Meu pai simplesmente escreve para sobreviver! Não que esse seja seu sustento… Isso seria um sonho inalcançável nos dias de hoje em que a leitura tem sido dizimada frente às telas de um celular!” E por aí vai longe no seu comprido discurso proseando corajosamente igualzinho a mim quando escrevo irado sobre algo que me desagradou.
E minha filha pequena jornalista Bárbara termina desse jeito: “Meu pai, desejo que aos seus 76 seus incontáveis livros continuem lhe trazendo lucidez. O Canto das Cigarras são crônicas cotidianas de um autor de múltiplos talentos e ansioso por mais histórias pra contar… Pra quem gosta de ler o lançamento será no dia 22 de maio as 19 horas no bar do Lavras Tênis Clube”. Ao que acrescento – ao final da Rua Costa Pereira logo à frente a casa que foi dos meus pais.
Quando escrevo não o faço pensando só em meu bem estar e também daqueles que gostam e tenham a intenção de passar a gostar de ler.
Escrevo de alma lavada e de cabeça lotadinha de coisinhas que aparecem do nada durante as madrugadas. A inspiração me consome e me faz perder o sono. Sonho que meus textos agradam a uns e desagradam à minoria. Seria essa a verdade ou mera quimera?
Nunca havia pensando dantes como seria difícil e ardido o caminhar vida afora pela medicina.
No entanto dos entre tantos momentos da minha vida em movimento chegar aos cinquenta e um anos de graduado não foi tão duro como pensava.
Como urologista ainda praticante, ao aqui chegar, anos distantes, pioneiro nessa especialidade que mais e mais se moderniza. Insucessos e bons resultados em tratamentos oferecidos aos meus pacientes alguns impacientes. Vi-me coroado de êxito na retirada de incontáveis cálculos renais. Mas perdi noites de sono quando nesse hospital, aqui pertinho, depois de cirurgias complicadas nas remoções de próstatas hipertrofiadas. Enfermeiras operosas me chamavam com urgência naqueles telefones negros que tilintavam estridentes a minha cabeceira.
A minha vida, como a de milhares de outros, não tem sido fácil, tanto a de médico especialista, como a de escritor.
Insatisfeitos falam dos médicos pelas costas.
Leitores comentam irados dos cronistas quando eles deixam escrito um ou mais textos com os quais discordam dos nossos pontos de vista.
Não há como agradar a gregos e troianos.
Depois de tantos anos e desenganos. Vestindo a vestimenta de escritor e médico.
Levando bordoadas nas costas na medicina. E ouvindo palavras encomiosas ou na tentativa inglória de me difamarem.
Olhando em direção aos peixinhos do meu aquário mudinhos e olhando pra mim.
Como gostaria de viver a vida deles em troca da vida ruim que porventura passou por mim.