Aquela manhã de finado novembro acordou Chico tentando de refrescar debaixo do ventilador.
A noite passou em claro tentando dormir na escuridão.
Exausto, sem tirar férias nem sabe quando. Chico era um exemplo de sujeito de uma retidão de fazer inveja a uma estrada cheia de curvas. Mal sabia ele como furtar. A palavra propina não fazia parte de seu vocabulário exíguo. Tudo fazia sem esperar vantagens. Era pau pra toda obra. Entendia de tudo um cadinho. Mal sabia rabiscar o próprio nome. Em criança fugia da escola como o diabo evita o crucifixo. Não se sabe o porquê desse seu segundo nome. Já que propina não lhe era familiar.
Naquele final de ano Chico bem que merecia um descanso. Uma viagem até que lhe faria bem.
O mais distante que tinha ido foi em romaria à Aparecida do Norte. Mesmo assim como desejava conhecer uma praia. Provar se de fato a água do mar era salgada. E se as ondas se debruçavam na areia. Era seu sonho desde menino.
Naquela primavera, com cheiro de verão, Chico foi agraciado pela sogra. Que com ele morava desde quando se casou com a filha. Com uma viagem ao estrangeiro.
Chico nem acreditou na novidade. Afivelou as tralhas com as poucas roupas que tinha. Não se se esqueceu de na sacola enfiar duas bermudas semi novas. Um calção herança do sogro meio fora de moda. E duas cuecas tipo samba canção.
Como não tina passaporte teve de fazer o primeiro na cidade onde havia pousado o ET.
Com ele dentro do bolso se preparou para pegar o avião. Na companhia da sogra e da esposa amada foi de busão ao aeroporto da capital. Que confusão na rodoviária. Acabaram por tomar um taxi. Que acabou se desviando da rota na intenção de cobrar em dobro.
Chico como não tinha grana acabou por deixar a corrida nas costas da sogra abonada. A velha até que era de boa paz. Não fazia questão de nadica de nada.
Na hora do embarque foi um Deus a eles acudiu. Não fosse pela aeromoça, que não era tão mocinha assim. A bagagem não iria caber naqueles compartimentos apertados acima da cabeça. Foi preciso enfiar tudo aquilo por baixo dos assentos. Chico passou a viagem inteirinha espremido como sardinha enlatada.
Enfim Cáncun. Um cidade mexicana situada na península de Iucatã, na costa do mar do caribe. Famosa pelas suas praias e shoppings onde se pode gastar e dólares ou em peso mexicano. Esqueça o nosso malfadado real.
Chico desembarcou deslumbrado com o cenário maravilhoso.
Eles iriam ficar num resort tudo incluído. Até o banho de mar e as toalhas.
A primeira noite foi um deslumbre. Só que a comida acabou sendo devolvida ao prato de onde ela veio. Os camarões eram de gosto duvidoso. Meio insossos ou salgados em demasia. Dava azia sá de sentir o cheiro. Era fila pra tudo. Incluso para entrar na fila.
Chico não se fazia entender. Com aquele minereis estropiado. Não falando patavina de portunhol ou inglês. Ele carecia de intérprete a cada vez que tentava subir de elevador. Aquela coisa que sobe e desce sempre lotada de vez em quando empacava. Parara num andar abaixo que não era o seu. E na hora de usar a pulseira para abrir a porteira ela não funcionava.
O pior estava para suceder. Na manhã do segundo dia resolveram ir à praia. Depois de noite mal dormida. O ar condicionado ligado à temperatura de pólo norte. Ou mais ao sul da Groenlândia. De posse das toalhas oferecidas gratuitamente. Desde que fossem devolvidas em bom estado mesmo salgadas e arenosas. Chico e sem sortes tiveram mais uma decepção. O mar não estava pra peixes. Chico quase se afogou na primeira onda. Levou um caldo e foi salvo por um salva vidas mexicano meio ou totalmente emburrado. Que só não lhe fez boca a boca por causa do bigodão. E depois do salvamento ainda o repreendeu numa linguagem que nem Chico entendeu, ainda bem.
Na hora da janta foi ainda pior. Que comida ruim. Tinha gosto de guarda chuva mofado. Cujo cabo se recusou a passar goela abaixo. Chico, sogra e esposa tiveram de baixar à enfermaria e ainda lhe cobraram a estada com uma conta pra lá de salgada. Mais do que a água do mar daquela praia caribenha.
Enfim o derradeiro dia. Para celebrar a efeméride todos passaram pelo bar. Chico resolveu pedir uma bebida. Ao invés de solicitar uma cachacinha velha conhecida, como não sabiam o que era aquilo tida como pinga ou água que passarinho não molha o biquinho. Acabaram lhe dando tequila. Que cachaça ruim. Aquilo desceu e voltou como avião e que decola e não descola. Chico cuspiu e quase vomitou no banheiro das mulheres, pois não encontrou qual era o seu.
Como não tinha dólares nem peso mexicano sentiu o peso da hostilidade à hora de voltar ao aeroporto. Não teve como dar propina ao motorista da vã. Que os deixou no meio do caminho. Onde tinha mais algumas pedras serem vencidas.
Que saudade da nossa terrinha abençoada por Deus e bonita por natureza mesmo agredida como está. Nada como o nosso Brasil.
Chico Propina desconjurou aquela mafaldada viagem.
“Eu heim! Cancún, nunca mais”…