Quanto riso, quanta tristeza

Era véspera de carnaval.

Uma quarta feira que antecedia os festejos de Momo.

Não chovia desde o ano passado. A seca preponderava inclemente.

Naquele sertão mineiro Zé da Mula sofria na pele desnuda toda a amargura e a quentura da terra seca. Era tanto calor que se podia frigir ovos à sombra do galinheiro. O sol sorria na sua amarelice desdentada.

Toda a safra de milho foi pras cucuias. A pastaria, antes enverdecida, mudou a cor para um amarelo desbotado. Da cor exata de um canarinho da terra de cor esmaecida logo depois de sair do ninho. Ainda jovenzinho pardinho.

A poeira entrava pelas narinas. Cadê aquele barro gostoso que fazia atolar as rodas do velho fusquinha? Zé nem se lembrava mais.

A última chuva que caiu se perdeu no tempo.  Até parece que nem choveu.

As vacas, magricelas, mugiam famintas à beira do curral. Mas cadê o trato? A silagem de milho purinho já terminou faz um tempão.

Naquela manhã de quarta feira. Em que o sol zunia lá no alto. Entre nuvens que não se viam. Zé acordou com um estranho pressentimento. Sonhou com a chuva e acordou num sol de rachar mamona. A azulice do céu fazia cegar os olhos.

Naquela noite Zé da Mula não conseguiu dormir.

As prestações atrasadas do banco lhe atazanavam. E ele, acostumado a pagar em dia não sabia quando poderia quitar as prestações. A soma, já vultosa, lhe tirava o resto do sono. A contas se amontoavam no tampo da mesa.

Era de seu costume acordar bem cedinho. Zé morava solitário naquela casinha tosca. Ali era feliz dentro da infelicidade que o atormentava. De vez em quando ia pra cidade. Ali tomava um porre. Chegava a sua rocinha trocando as pernas.  Mas chegava sempre. Pois era ali seu pouso, seu ninho, seu aconchego desde meninozinho.

Naquela madrugada quente de quarta feira Zé foi à procura de sua melhor vaca. Cinderela não veio junto as outras. Onde estaria ela?

Ela estava de mojo cheio na semana passada. Será que ela pariu?

Era sua primeira cria. Uma linda bezerrota teria sido despejada de seu útero fértil?

No alto uma penca de urubus planavam no céu azul. Era um sinal de mau agouro aquelas aves agourentas que prenunciavam a morte.

Foi num brejinho quase seco que Zé da Mula encontrou a pobre Cinderela. As duas, a cria e ela, jaziam mortinhas prontas a serem servidas de prato cheio aos urubus.

Zé nem deu um enterro decente a sua melhor vaca. Fez uma breve oração e se despediu lastimando seu infortúnio.

Mas a vida tinha de continuar andando a passos lentos. Foi o que Zé fez. Depois de olhar pro céu e agradecer ao seu paizinho as graças alcançadas. A saúde que era agraciado.  A vida boa que levava.

Era hora do almoço quando voltou a sua morada. Esquentou a janta de ontem na trempe ainda fumegante do fogão a lenha.

Mal teve tempo de comer. Ouviu um barulho vindo do curral. Não era hora da segunda ordenha. O relógio mostrava apenas meio dia.

Sem tempo para um descanso, por mais que merecido, saiu de casa apressado.

O que seria aquele barulho? Algo parecido a um tiro de espingarda.

Uma vez chegado no curral mais uma desgraça sucedeu. Outra vaca, de bezerro novinho, berrava em altos decibéis enfiada na tábua da porteira.  Ela tentou pular a cerca para dar de mamá a sua cria. Mas foi impedida por não caber no espaço entre duas tábuas. Mais uma morte não anunciada.  Mais uma rês perdida em circunstâncias adversas.

Mas o dia continuava.  Zé não perdeu a esperança em dias melhores.

Mas acreditem.  Agora foi a vez da vaca chamada Esperança que se perdeu no pasto. Uma novilhota linda desaparecida desde a noite de ontem.

Zé, mais uma vezinha só, foi à procura da Esperança.

Quase perdendo a esperança de encontrá-la viva acabou a esperança depois de constatar o óbvio.  Mais um prato cheio aos urubus que se banqueteavam com a carcaça da pobre Esperança morta.

Mais uma morte a anunciar.  Mais uma perda lastimável que fez sofrer o infeliz Zé da Mula.

Foi nesse final de semana que o visitei. Já era sábado de carnaval.

Encontrei o pobre Zé assentado à soleira de sua porta.

Ele me pareceu desesperançoso, triste e acabrunhado.

Não se via um só sorriso em sua face tristonha. Nos seus olhos percebi algumas lágrimas prestes a caírem.

Na tentativa inglória de atenuar sua dor a ele disse: “Zé, anime-se. Hoje já é carnaval”

Foi quando Zé da Mula me respondeu, com a face crispada pelo sofrimento: “no carnaval pode ter muito riso e alegria. Aqui dentro de mim impera a tristeza”.

Despedi-me do Zé pensando na realidade do carnaval.

Enquanto pessoas alegres desfilam sorrisos. Outras esbanjam sofrimento. Já que enfermidades não frequentam a folia. E apenas engrossam leitos de hospitais.

 

 

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