Estranha obsessão

A essa hora, madrugada, nem ainda o relógio marca quatro horas.
Dessa sexta feira nove de outubro.
Madrugada linda que se apresenta aos meus olhos.
E acredito aos dele também.
Ambos temos a mesma paixão.
A mesma que tinha em tempos idos. A qual um cadinho ainda me corrói as entranhas.
Quando aqui cheguei, bem no comecinho da minha profissão.
Juntei todas economias. Pedi emprestadas as da minha esposa.
E cometi a insanidade de comprar uma rocinha.
Mesmo ela me dando um grande prejuízo não parei de investir nesse meu sonho maluco de ser médico fazendeiro.
Ali, na zona rural de Ijaci, a uns pouquinhos quilômetros da minha Lavras não menos amada.
Tentei fazer daquele pedacinho de pasto sujo. Um curralzinho onde, quando as vacas entravam afoitas tinha de falar às orelhas compridas delas. Não sei se elas entendiam meu recado: “Braúna, Minea, Saca-rolha. Cuidado onde pisam. Se for no cocô de vocês não importa. Mas, se for num dia barrento ocês, minhas vacas queridas. Podem quebrar as pernas e o prejuízo vai ser rachado entre nós”.
Essa minha obsessão pelas vacas vem de tempos antigos.
Quando passava férias na roça de minhas tias avós. As queridas Mariana e Leonor. Acordava cedinho pra ver tio Júlio, barbudo , cidadão prestante da linda Perdões. Tirar leite na munheca de suas vaquinhas tatus com cobra não peçonhenta. Eram uns litrinhos de nada. Suficiente para deixar um cadinho aos bezerrinhos. Que sugavam as tetas das mães que ruminavam felizes. Ao verem as barriguinhas cheias de leite das suas crias. Inclusive os gabiruzinhos cujo triste destino é virar linguiça num açougue qualquer.
A essa hora Galvão, sujeito bonachão, de barriga inflada não sei a razão. Segundo me garantiu não beber nadinha de álcool há um tempão. Morador num retiro pertinho de Nepré. Cidade de terra vermelha. Própria ao cultivo de café e outras culturas mais.
Foi exatamente lá, por indicação de um amigo por quem tenho muito apreço e admiração. Cujo nome pomposo é Marcos Vinícius Serra Negra não sei mais ou quê?
Grande produtor de café homem de cultura e grande envergadura moral.
Na fazendinha desse Galvão apeei em companhia do meu amigo falador Tom Zé.
Na intenção concretizada de comprar duas novilhas orelhudas mestiças.
E acabei levando três no caminhão boiadeiro do simpático Bili, de Ijaci. Paguei com cheques pré datados a vencer não sei quando. Parece que não levei manta como dantes na minha rocinha muito prejuizenta.
Minhas novas amigas, ruminantes. Agora passaram a morar na minha casa beira lago pra onde vou amanhã ao despertar de um novo dia.
Esse mesmo cidadão rural. Nascido e penso ter sido criado agachado no pé das vacas. Não sei se herdou esse aprazível costume de pai e avô.
Quando disse a ele que retiro é escravidão. Sem sábados, domingos. dias santos e feriados, sem folgar ou descansar.
Numa das nossas prosas telefônicas dele ouvi: “não acho que tirar leite seja sinônimo de escravidão. Amo minhas vacas. Vivo, e bem, com a pouca renda do leite. Aqui sou retireiro. Carpidor de mato quando ele fica alto. Sei inseminar minhas novilhas a hora certa quando dão cio. Me sujar no barro do meu curral não tenho isso como sujeira. Pior se pisasse em caca de gente. Amo o que faço. E penso que minhas vacas me amam também.”
A minha obsessão tem quase o memo nome da do retireiro Galvão.
Por vezes me questiono: o que me faz açodar tão cedinho. Ter escolhido viver sozinho. Mudar de vida? Apenas de apartamento? Dar um ponto final numa relação prazerosa ou não. Com uma mulher de muito valor a quem devo tanto. Sempre usando minhas pernas como rodas de um carro. Sendo ainda médico especialista. Vendo-me fatiar em duas metades. Uma escreve. A outra continua urologista sem pensar em aposentar por completo. Que estranha obsessão a minha. Essa que não me deixa passar um dia sequer sem ligar dois dos meus computadores. Esse onde escrevo crônicas. O segundo que passou a morar no meu novo apartamento. Onde Urânia vai muito bem pela metade. Que paixão doentia essa. Que não dela quero me libertar. Que consome minha metade escritor. Afinal são mais de vinte e seis anos que na literatura peguei carona. Nessa viagem tão prazerosa na qual viajo sem pegar um avião e sem sair do lugar. Estranha coisa essa. Essa doidivana mania de escrever tanto. De me transportar sem me importar com o que pensam os outros. Que comigo se cruzam nas ruas e me perguntam: “o senhor ainda é médico ou virou escritor? Essa estranha obsessão tem me consumido. Não sei e não quero saber até quando.”
No dia em que a perder vou procurar sempre. Em todos os lugares até a encontrar de novo.

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